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A cólera e a política: reflexões à luz da filosofia platônica

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Por Jobilei Gonzaga

“Ninguém abre mão do poder depois que alcança”

A política, em sua essência, deveria ser a arte do bem comum — o espaço em que os homens, guiados pela razão, buscam a justiça e a harmonia social. No entanto, o cenário político contemporâneo tem se tornado cada vez mais dominado por paixões desmedidas, discursos inflamados e a cólera disfarçada de virtude. Em tempos em que a indignação se converte em espetáculo e a ira em ferramenta de poder, torna-se urgente revisitar a filosofia clássica para compreender o que está em jogo quando a política se deixa dominar pela emoção e perde a razão.

Platão, em sua obra“A República”, descreve a alma humana dividida em três partes: a racional, a irascível (ou colérica) e a concupiscente. A parte racional busca a verdade; a concupiscente, os prazeres; e a colérica, a honra e a força. Quando essas dimensões estão em equilíbrio, a alma é justa. Mas, quando a cólera se sobrepõe à razão, o homem — e, por consequência, a política — tornam-se tirânicos.

A cólera, em seu sentido platônico, não é apenas a raiva passageira, mas a energia moral que impulsiona o homem a defender aquilo que acredita ser justo. Ela pode ser nobre quando subordinada à razão, mas torna-se destrutiva quando age sem sabedoria. No campo político, a cólera irracional manifesta-se nas polarizações extremas, nas ofensas travestidas de discurso moral e na incapacidade de diálogo entre os que pensam diferente.

Platão advertia que a degradação da pólis começa quando os governantes cedem às paixões e buscam o poder pelo prazer de dominar, e não pela virtude de servirA cólera política, portanto, é o sintoma de uma sociedade em que a parte racional da alma coletiva foi silenciada, e o impulso emotivo passou a ditar as decisões. O resultado é uma política marcada pela violência verbal, pela manipulação das massas e pela ausência do bem comum como meta.

Na “República”, o filósofo ensina que o verdadeiro governante deve ser o “rei-filósofo” — aquele que, guiado pela razão e pelo amor à sabedoria, governa não por ambição, mas por dever. É o oposto do homem colérico, que busca o poder para satisfazer o próprio ego ou vingar-se de seus adversários. A cólera, quando não é domada pela razão, torna-se instrumento de destruição da justiça.

Hoje, mais do que nunca, vivemos um tempo em que a cólera é usada como combustível político. Ela é provocada, estimulada e explorada por líderes e mídias que compreendem o poder da indignação coletiva. Mas, como diria Platão,“a medida de um homem está em como ele reage à cólera”. E poderíamos acrescentar: a medida de uma nação está em como seus líderes a conduzem.

Precisamos de uma política em que a razão volte a orientar o debate público, e a cólera, quando necessária, seja expressão de coragem moral — e não de ódio. A filosofia platônica nos lembra que a justiça nasce da harmonia entre as partes da alma. Da mesma forma, a boa política nasce da harmonia entre a paixão pelo bem, moderação das emoções e sabedoria racional.

A cólera pode ser um fogo que purifica, mas também um incêndio que destrói. O desafio ético e político do nosso tempo é aprender a transformá-la em luz — não em labareda.

Jobilei Gonzaga é Pastor, jornalista, professor de filosofia e educador cristão.

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No Brasil, o câncer ainda depende da renda para ser curado

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No Brasil, o acesso ao diagnóstico e ao tratamento do câncer ainda pode depender da condição financeira do paciente. Essa é uma realidade que expõe, de forma clara, as limitações das políticas públicas de saúde e a dificuldade histórica do país em garantir acesso igualitário ao tratamento.

Dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA) mostram a dimensão do problema: o país deve registrar cerca de 781 mil novos casos por ano entre 2026 e 2028, sendo aproximadamente 518 mil casos anuais, excluindo tumores de pele não melanoma. Mato Grosso deve registrar cerca de 8.680 novos casos de câncer por ano nesse mesmo triênio, totalizando cerca de 25,9 mil novos casos. Isso coloca Mato Grosso entre os estados com maiores taxas de incidência do país.

Na prática, pacientes de baixa renda frequentemente chegam ao sistema de saúde com a doença em estágio avançado, o que reduz significativamente as chances de cura. Já aqueles que têm acesso à medicina privada costumam descobrir o câncer mais cedo, quando o tratamento é mais eficaz.

O tratamento do câncer no Brasil expõe a ineficiência do Estado em proteger seus cidadãos. Em 2025, o brasileiro trabalhou 149 dias — cerca de cinco meses — apenas para pagar impostos. Aproximadamente 40,82% da renda foi destinada ao pagamento de tributos diretos e indiretos. Ainda assim, mesmo diante de uma das maiores cargas tributárias do mundo, os governos, ao longo de décadas, não implementaram medidas de saúde capazes de garantir condições eficazes e igualitárias de tratamento entre as diferentes classes sociais.

De forma objetiva, pode-se afirmar que a população mais pobre continuará morrendo mais, sofrendo mais, enfrentando maiores mutilações e limitações após o tratamento do câncer no país. Além disso, permanecerá mais tempo afastada de suas atividades profissionais e sociais, apresentará maiores taxas de aposentadoria precoce e menor produtividade, gerando impactos familiares e sociais relevantes. Em resumo, morrerá mais jovem, após enfrentar mais dor e sofrimento — consequências diretas de diagnósticos tardios e da incapacidade do Estado de oferecer uma saúde de melhor qualidade e mais equitativa.

É uma constatação que não pode mais ser ignorada: no Brasil, o tempo do diagnóstico ainda define quem tem mais chances de sobreviver.

Isso ocorre justamente em um momento de importantes avanços na medicina. Hoje, contamos com tratamentos mais personalizados, imunoterapia e o uso crescente de tecnologias para diagnóstico precoce. No entanto, o acesso a essas inovações ainda não é igual para todos.

O acesso ao diagnóstico precoce e ao tratamento adequado não pode depender da renda. Trata-se de um direito e de uma responsabilidade direta do Estado.

O Dia Mundial de Combate ao Câncer, em 8 de abril, reforça a urgência desse debate. Não basta avançar na tecnologia — é preciso garantir que ela chegue a toda a população.

Em um ano eleitoral, essa realidade precisa deixar de ser apenas um diagnóstico e se tornar prioridade. É fundamental que propostas concretas para o enfrentamento do câncer — especialmente no acesso ao diagnóstico precoce — estejam no centro do debate público.

Como médico oncologista, professor e cirurgião, reforço: nenhum avanço substitui a prevenção. A alimentação equilibrada continua sendo um fator essencial na redução do risco de câncer, inclusive para quem já enfrentou a doença.

O Brasil vive um paradoxo entre avanço científico e desigualdade no acesso. Enfrentar o câncer exige mais do que tecnologia — exige decisão, investimento e compromisso com a equidade.

O enfrentamento do câncer no país não é apenas um desafio médico. É, sobretudo, uma escolha política — e essa escolha define, na prática, quem terá acesso à vida.

Dr. Wilson Garcia, Médico oncologista, professor e cirurgião, combatente da mortalidade por câncer no país.

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