Opinião
A fila do SUS em Mato Grosso não pode continuar condenando vidas
Opinião
Natasha Slhessarenko
Mato Grosso é um estado continental. São 142 municípios espalhados por mais de 900 mil quilômetros quadrados. Mas nenhuma distância geográfica justifica que milhares de pessoas passem meses e, em muitos casos, anos aguardando uma consulta, um exame ou uma cirurgia enquanto suas doenças avançam.
Como médica da Atenção Primária à Saúde há mais de 20 anos, conheço essa realidade muito antes de entrar no debate político. Atendi mães desesperadas pela consulta de um filho, idosos perdendo a qualidade de vida à espera de um exame e pacientes com suspeita de doenças graves vivendo a angústia de não saber quando seriam atendidos.
Todos os dias sou acionada por pessoas dos quatro cantos de Mato Grosso relatando que precisam de consulta com especialista, de exame de alta complexidade, de uma vaga de UTI ou de uma cirurgia. São histórias de sofrimento que revelam um sistema que deixou de oferecer respostas no tempo em que elas são mais necessárias.
Essa realidade também ficou evidente percorrendo cerca de 90 municípios, ouvindo a população de todas as regiões do estado. Encontramos diferentes demandas, mas uma delas apareceu de forma praticamente unânime: a saúde pública é hoje a maior preocupação dos mato-grossenses. A demora na regulação e a dificuldade de acesso aos serviços especializados foram reclamações recorrentes.
A fila da regulação se tornou um dos maiores dramas da saúde pública em Mato Grosso. E há um agravante que torna essa situação ainda mais cruel: o cidadão simplesmente não sabe onde está na fila.
Depois de sair da unidade de saúde com um encaminhamento, ele desaparece dentro do sistema. Não sabe quantas pessoas estão à sua frente, não conhece a previsão de atendimento e passa a conviver com a insegurança. A espera deixa de ser apenas por um procedimento e passa a ser também por uma resposta.
Isso precisa mudar.
É plenamente possível implantar um sistema digital, acessível pelo celular ou computador, para que cada paciente acompanhe sua posição na fila de consultas, exames e cirurgias. Transparência não resolve todos os problemas, mas devolve dignidade ao cidadão e permite que ele saiba exatamente em que etapa do processo está.
Mas não basta mostrar a fila. É preciso fazê-la andar.
Em um estado com as dimensões de Mato Grosso, a telemedicina precisa deixar de ser exceção para se tornar política pública. Uma rede estadual de teleconsultas pode aproximar especialistas de quem vive no interior, reduzir deslocamentos, acelerar diagnósticos e ampliar o acesso à saúde com muito mais eficiência.
Ao mesmo tempo, é indispensável fortalecer a Atenção Primária. Quando o posto de saúde funciona bem, muitas doenças são diagnosticadas precocemente, os pacientes são acompanhados corretamente e menos pessoas precisam enfrentar a longa espera por atendimentos especializados. Investir na atenção básica é investir em prevenção, organização da rede e qualidade de vida.
A saúde pública precisa de gestão, planejamento e tecnologia.
Também precisa de compromisso.
A saúde não pode viver de promessas de fim de mandato. Quem administrou Mato Grosso nos últimos oito anos teve tempo suficiente para modernizar a regulação, dar transparência às filas, ampliar a telemedicina e fortalecer a atenção básica. Se essas soluções são reconhecidas como necessárias agora, por que não foram implementadas antes? O cidadão que esperou anos por uma consulta ou perdeu um familiar na fila do SUS não pode ser tratado como espectador de promessas feitas no apagar das luzes.
A fila do SUS não é apenas uma lista de nomes. Ela representa vidas interrompidas, diagnósticos tardios e famílias inteiras vivendo sob o peso da incerteza. Em muitos casos, representa pessoas que não resistiram ao tempo de espera.
Mato Grosso pode fazer diferente. É possível construir uma saúde mais humana, mais transparente e mais eficiente, utilizando a tecnologia a favor das pessoas, fortalecendo a atenção básica e garantindo que a distância geográfica nunca mais seja uma sentença para quem precisa de atendimento.
Quem espera por saúde não pede privilégio.
Exige um direito garantido pela Constituição e, acima de tudo, respeito à sua vida.
Dra. Natasha Slhessarenko é médica, empresária, professora da UFMT e há mais de 20 anos atende no posto de saúde do Grande Terceiro, em Cuiabá-MT.
Opinião
A violência contra a pessoa idosa também acontece no bolso
Valéria Lima
O Brasil está envelhecendo, e essa transformação exige um olhar cada vez mais atento para a proteção da pessoa idosa. Além do acesso à saúde e à previdência, é preciso assegurar que milhões de brasileiros envelheçam com autonomia, segurança e respeito aos seus direitos. Nesse contexto, a violência patrimonial e financeira tornou-se um dos desafios mais preocupantes da atualidade.
Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) ajudam a dimensionar esse desafio. O Censo Demográfico de 2022 identificou 32,1 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais, o equivalente a 15,8% da população. Em comparação com 2010, esse contingente cresceu 56%, reforçando a necessidade de ampliar políticas públicas e mecanismos de proteção voltados à população idosa.
O crescimento dessa população também evidencia outro desafio: o aumento dos casos de violência contra pessoas idosas. Em 2025, a Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos registrou 59.134 denúncias envolvendo esse público, sendo 66% das vítimas mulheres. Entre as diversas formas de violência, a patrimonial e financeira merece atenção especial por comprometer justamente a renda que garanta a subsistência, a autonomia e a qualidade de vida de milhares de aposentados e pensionistas.
A violência patrimonial ocorre quando terceiros utilizam o patrimônio ou a renda da pessoa idosa de forma indevida, mediante fraude, abuso de confiança, coação ou aproveitamento de sua condição de vulnerabilidade. Isso pode ocorrer por meio de empréstimos consignados não autorizados, descontos indevidos em benefícios previdenciários, golpes bancários, falsificação de assinaturas ou, ainda, pela atuação abusiva de familiares ou pessoas próximas.
A legislação brasileira reconhece essa vulnerabilidade. A Constituição Federal assegura proteção especial à pessoa idosa, enquanto o Estatuto da Pessoa Idosa (Lei nº 10.741/2003) estabelece garantias voltadas à preservação de sua dignidade, autonomia e patrimônio. O aumento desses casos tem motivado, inclusive, a discussão de novas medidas legislativas para fortalecer a prevenção, a identificação e o enfrentamento da violência patrimonial.
Na prática, muitos idosos só descobrem que foram vítimas quando percebem a redução inesperada do valor da aposentadoria ou da pensão. Em outros casos, desconhecem completamente a existência de contratos de empréstimos ou de descontos realizados em seus benefícios. Situações como essas não devem ser tratadas como algo “normal” ou inevitável. Ao contrário, exigem apuração e providências imediatas.
Algumas medidas simples podem fazer a diferença: acompanhar regularmente o extrato do benefício previdenciário, desconfiar de ligações oferecendo crédito fácil, nunca fornecer senhas ou códigos de confirmação por telefone e buscar esclarecimentos sempre que surgir qualquer movimentação financeira desconhecida. A informação continua sendo uma das principais formas de prevenção.
Quando a fraude já ocorreu, o ordenamento jurídico oferece mecanismos para proteger a pessoa idosa. Dependendo do caso, é possível contestar administrativamente descontos indevidos, buscar a nulidade de contratos firmados sem consentimento, responsabilizar instituições financeiras e pleitear judicialmente a reparação dos prejuízos sofridos.
Na advocacia previdenciária, muitas vezes o processo vai além da discussão sobre um contrato ou um benefício. Em inúmeros casos, o que se busca preservar é a tranquilidade financeira de pessoas que trabalharam durante décadas e dependem dessa renda para custear medicamentos, alimentação, moradia e outras despesas essenciais.
Neste Dia dos Avós, talvez o melhor presente não esteja apenas nas homenagens, mas também na atenção. Conversar sobre golpes, acompanhar os extratos dos benefícios, orientar sobre cuidados nas relações financeiras e buscar auxílio jurídico diante de qualquer irregularidade são atitudes que demonstram respeito e responsabilidade.
Envelhecer com dignidade é um direito assegurado pela Constituição e pela legislação brasileira. Mais do que reparar prejuízos, proteger a pessoa idosa significa preservar sua autonomia, sua segurança e o respeito à história construída ao longo de uma vida inteira. Afinal, cuidar de quem sempre cuidou de nós também é garantir que seus direitos sejam efetivamente respeitados.
Valéria Lima, advogada especialista em Direito Previdenciário, Regime Geral (iniciativa privada) e Próprio (servidores públicos), MBA em Gestão de Pessoas e membro do Instituto Brasileiro de Direito Previdenciário (IBDP).
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