Agricultura
Por ideologia ou por domínio? O agro no centro da disputa entre potências
Agricultura
Um novo capítulo nas históricas relações entre Brasil e Estados Unidos está sendo escrito neste momento: na próxima sexta-feira (01.08), entra em vigor (se o Trump não mudar de ideia de novo) a sobretaxa de 50% sobre grãos, carnes e minério de ferro etc, produzidos no Brasil.
A medida, apesar do presidente norte-americano ter tentado disfarçar dando um viés político meio atabalhoado, é vista por especialistas como uma resposta direta aos avanços do Brasil nos BRICS – grupo econômico formado por cinco grandes países emergentes: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, que buscam cooperação em áreas como comércio, investimentos e desenvolvimento sustentável
No artigo “Por Ideologia ou domínio comercial”, publicado na Revista Pensar Agro, Izan Rezende, presidente do Instituto do Agronegócio (IA), mergulha no assunto com uma abordagem instigante. Ele compara a Ferrovia Bioceânica Brasil–Peru (projeto que promete ligar o Porto de Santos ao Pacífico e de lá à Asia, criando um corredor direto para a China) à construção do gasoduto Nord Stream II, que ligaria Rússia e Alemanha.
E assim como o gasoduto russo foi alvo de duras sanções por alterar o eixo energético europeu, a ferrovia sul-americana pode ser o verdadeiro algo das sanções trumpistas por ameaçar interesses comerciais estratégicos dos EUA.
A ligação direta do Brasil com o Pacífico — e, por consequência, com o mercado asiático — reduziria a dependência do canal do Panamá e dos portos norte-americanos, encurtando caminhos para commodities brasileiras como soja, carne e milho. Não por acaso, o agronegócio se vê no epicentro dessas disputas.
A partir deste paralelo Rezende provoca a reflexão: até onde uma superpotência pode ir para proteger sua influência? E mais — como o agronegócio brasileiro deve reagir diante de tarifas imprevisíveis e disputas geopolíticas cada vez mais explícitas?
SAIBA MAIS
1 – O gasoduto Nord Stream II, entre a Rússia à Alemanha através do Mar Báltico, foi concluído em setembro de 2021, mas nunca entrou em operação. Sua ativação foi suspensa pela Alemanha em fevereiro de 2022, em resposta ao reconhecimento das repúblicas separatistas de Donetsk e Luhansk pela Rússia, antes da invasão da Ucrânia.
Em setembro de 2022, o Nord Stream 2 sofreu danos significativos devido a explosões, supostamente causadas por sabotagem. Uma das duas tubulações do gasoduto foi danificada, mas a outra permanece intacta, embora nunca tenha sido utilizada.
Atualmente, o governo alemão está tomando medidas para impedir qualquer tentativa de reativação do Nord Stream 2. Há discussões sobre emendar a legislação de comércio exterior para bloquear mudanças de propriedade que possam permitir a retomada do funcionamento do gasoduto. Além disso, a Alemanha apoia a inclusão do Nord Stream 2 em pacotes de sanções da União Europeia contra a Rússia. Desde então permanece inativo e sem perspectiva de operação no futuro próximo, com esforços contínuos para evitar sua reativação
2 – A Ferrovia Transoceânica, também conhecida como Corredor Bioceânico Brasil-Peru, é um projeto de infraestrutura que visa conectar o Brasil ao Pacífico, atravessando o Peru.
Com uma extensão estimada de 4.900 km, a ferrovia ligaria o Porto de Chancay, no Peru, ao Porto de Aratu, na Bahia, passando por estados brasileiros como Acre e Tocantins. A iniciativa é resultado de uma parceria estratégica entre Brasil, Peru e China, com o objetivo de facilitar o escoamento de mercadorias entre a América do Sul e a Ásia, especialmente para atender à crescente demanda chinesa por produtos sul-americanos, como soja e minério de ferro.
Recentemente, o governo brasileiro e o chinês discutiram a construção da ferrovia, com a proposta de utilizar a Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fio) como parte do trajeto. A Fiol, que atualmente está em construção, ligará o estado do Tocantins ao Porto de Ilhéus, na Bahia, e servirá como uma extensão para o Corredor Bioceânico.
O projeto enfrenta desafios logísticos e ambientais, especialmente devido à necessidade de atravessar a Cordilheira dos Andes e a Floresta Amazônica. Apesar disso, a ferrovia é vista como uma oportunidade para impulsionar o desenvolvimento econômico em regiões brasileiras menos desenvolvidas e fortalecer os laços comerciais entre a América do Sul e a Ásia .
O artigo completo de Isan Rezende está disponível na Pensar Agro (acesse aqui) e promete instigar quem quer entender os bastidores dessa tensão que pode redefinir o rumo do setor agropecuário nacional. Vale a pena conferir
Fonte: Pensar Agro
Agricultura
Usina transforma dejetos suínos em combustível e abre nova frente de renda no campo
A geração de energia a partir de resíduos da produção animal começou a ganhar escala no Brasil com a entrada em operação da primeira usina de biometano da América Latina certificada pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) para uso de dejetos suínos. A planta está localizada em Campos Novos (350 km da capital, Florianópolis), no Meio-Oeste de Santa Catarina, uma das principais regiões produtoras de proteína animal do país.
O projeto recebeu cerca de R$ 65 milhões em investimentos e tem capacidade de produzir até 16 mil metros cúbicos de biometano por dia, combustível renovável que pode substituir o gás natural em aplicações industriais e veiculares. A iniciativa conecta geração de energia, tratamento de resíduos e renda adicional para produtores integrados à cadeia da suinocultura.
O Brasil abriga um dos maiores rebanhos suínos do mundo, com produção anual superior a 5 milhões de toneladas de carne, concentrada principalmente na região Sul. Esse volume gera uma quantidade significativa de resíduos, que historicamente representam passivo ambiental e custo de manejo. A conversão desses dejetos em biogás e, posteriormente, em biometano, muda essa lógica ao transformar resíduo em ativo econômico.
A usina opera com biodigestores do tipo CSTR, tecnologia que permite a decomposição controlada da matéria orgânica e a geração de biogás. Esse gás é então purificado por membranas até atingir pureza superior a 96%, padrão exigido para comercialização como biometano. A certificação da ANP garante rastreabilidade e viabiliza a inserção do produto no mercado formal de energia.
Além do combustível, o projeto gera subprodutos com valor comercial, como CO₂ de grau alimentício e biofertilizantes, ampliando o conceito de economia circular dentro da propriedade rural. Outro componente relevante é a emissão de créditos de descarbonização (CBios), que cria uma fonte adicional de receita atrelada à redução de emissões.
A iniciativa ocorre em um momento de expansão do mercado de biogás no país. O Brasil já conta com mais de 900 plantas em operação, segundo dados da Associação Brasileira do Biogás (ABiogás), mas a maior parte ainda voltada à geração elétrica. O biometano, por sua vez, representa uma etapa mais avançada da cadeia, com maior valor agregado e potencial de substituição de combustíveis fósseis.
Em Santa Catarina, a forte presença da suinocultura cria condições favoráveis para esse tipo de projeto. O estado é um dos principais produtores de suínos do país e concentra uma cadeia integrada, com cooperativas e agroindústrias estruturadas, o que facilita a coleta de resíduos e a viabilização econômica das usinas.
A expansão já está no radar. A empresa responsável projeta investimentos superiores a R$ 500 milhões no estado nos próximos anos, com novos projetos de biometano voltados ao aproveitamento de resíduos agropecuários.
Para o produtor rural, o modelo abre uma nova frente de receita e reduz custos ambientais. Ao integrar produção animal, geração de energia e fertilização do solo, o sistema cria um ciclo mais eficiente e sustentável, com impacto direto na rentabilidade da atividade.
O avanço do biometano indica uma tendência mais ampla no agronegócio brasileiro: a incorporação de energia à lógica produtiva. Assim como ocorreu com o etanol e o biodiesel, a geração de combustível a partir de resíduos deve ganhar espaço e se consolidar como mais um eixo de diversificação dentro da porteira.
Fonte: Pensar Agro
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