Cultura
Desfiles do Grupo Especial abrem Carnaval com enredos potentes
Cultura
Tá ouvindo isso? O batuque sagrado da bateria só pode significar que a maior festa do mundo está chegando. Então se prepare, pois a Folia sente falta de algo especial.

É mais um episódio da série que estamos levando a vocês sobre a parte mais monumental da Folia, os desfiles das escolas de samba que estão no grupo de elite do espetáculo. Alô, bateria.
Logo na abertura, no domingo de Carnaval, já tem novidade na passarela do samba. É a caçulinha, Acadêmicos de Niterói, fundada em 2018 e que está no Grupo Especial pela primeira vez. Ela traz um enredo, Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do Brasil, sobre a trajetória do metalúrgico que chegou à presidência da República.
Logo depois, cruza o Sambódromo a agremiação considerada uma das realezas do Carnaval. Tanto que carrega o título até no nome. É a Imperatriz Leopoldinense, que chega exaltando um ícone da música brasileira com o enredo Camaleônico.
Bota pra beber, bota pra beber, que o dia vai nascer. Feliz Xaréu Leopoldinense. Olha, meu amor. Vem, meu amor. Vem, meu amor. Vem, meu amor. Vamos viver a vida. Bota pra beber, bota pra beber, que o dia vai nascer.
Vem, meu amor, escutar a homenagem da Imperatriz para o cantor Ney Matogrosso, um dos mais premiados da MPB e símbolo do combate ao preconceito e à discriminação contra a comunidade LGBTQIAPN+. A ideia é levar essa luta à Avenida, a denúncia em tom de alegria e festa. Ao longo de sua carreira, o cantor destaca em suas canções diversas características socioculturais e políticas críticas dos muitos brasis.
Nesse sentido, o diretor de Carnaval da Imperatriz Leopoldinense, André Bonatti, defende a importância de trazer a história do artista como enredo, reafirmando o papel político e educacional que é próprio das escolas de samba, além de elemento importante para conquistar a décima estrela.
“A escola de samba tem um papel fundamental político. Quando eu falo político, não é panfletário, principalmente na questão da disseminação de cultura e educação, de trazer esses brasis que ficam fora da educação formal da escola.”
E no momento em que a gente tem sempre que levantar essa bandeira do respeito e, mais do que o respeito, acho que a admiração. Eu acho que é um discurso muito importante falar de Ney Matogrosso num momento como esse, num Brasil como esse que a gente vai vivendo ainda tão polarizado.
A luz é o Cruzeiro, já vive encruzilhada, é uma bomba de Custódio no ronqueiro. Depois do furacão, Ney Matogrosso passa pela Marquês de Sapucaí ninguém menos que a dona da maior quantidade de títulos de campeã do Carnaval. A Portela, embalada pela águia, seu símbolo maior, mergulha na religiosidade com o enredo O Mistério do Príncipe do Bará — a oração do Negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande.
Do Rio Grande tem reza pra abençoar. O príncipe da coroa de Bará, a coroa de Bará.
Quem rege a coroa do Orixá Bará é o príncipe africano Custódio Joaquim de Almeida, símbolo da resistência negra no Rio Grande do Sul entre os séculos 19 e 20 e fundador do Batuque, a principal religião de matriz africana do Sul do país. O diretor de harmonia da Portela, Julinho Fonseca, conta que foi feito um grupo para ir às terras gaúchas conhecer mais da história de Custódio. O sentimento foi de surpresa.
Falar do príncipe Custódio é mergulhar a fundo da nossa cultura, da nossa negritude, representatividade negra, que é tão esquecida. Muita gente não sabia que existia essa parte nossa no Rio Grande do Sul. Muita gente, quando para pra falar qualquer coisa sobre o enredo, fica surpresa quando a gente começa a falar do príncipe Custódio, da Assunção do Bará, dos orixás, que têm o mesmo nome, mas a cultura é outra da que a gente está acostumado a ver aqui no Rio. Vai ser muito rico mesmo, vai ser um banho de cultura. A escola está feliz, a escola está diferente. Vocês podem esperar uma Portela alegre, leve, com muita vontade de buscar sua 23ª estrela.”
Ainda se refazendo da morte de seu grande intérprete Gilsinho, a Portela aposta na voz poderosa de Zé Paulo e tem esperanças de quebrar o jejum de 9 anos sem título.
“As folhas secas me guiaram ao Touré, pintada em verde e rosa, gengiva e urucum. A flor mulher, Mangueira quase centenária, uma nação incorporada, inteira que bola de sem dente…”
Se começamos com a caçulinha, por que não encerrar com uma das mais tradicionais?
A verde e rosa da Zona Norte, a Estação Primeira de Mangueira, encerra o primeiro dia de desfiles do Grupo Especial com o enredo O Guardião da Amazônia Negra, em homenagem a um dos maiores curandeiros e figura religiosa do Amapá.
Raimundo dos Santos Souza, o Mestre Sacaca, homem de origem negra e indígena, nascido no Amapá, que utilizava ervas e conhecimentos tradicionais para curar doenças, sendo chamado de doutor da floresta.
Se este primeiro dia está carregado de emoção, se preparem, porque vêm mais dois dias por aí. São diferentes histórias que remetem aos muitos brasis contadas na Avenida com um objetivo em comum: alcançar o tão sonhado título.
*Sob supervisão de Vitória Elizabeth, da Rádio Nacional no Rio de Janeiro.
Cultura
O “mojo “de Moacir Santos: o maestro que conectou sertão, bossa e jazz
Compositor, arranjador, multi-instrumentista, maestro… Moacir Santos completaria 100 anos no próximo dia 26 de julho. Com uma extensa obra que se destaca pela fusão de ritmos afro-brasileiros com o jazz, o músico ainda carece de maior reconhecimento no Brasil. 

A reza de pessoas numa procissão foi o ponto de partida para a melodia de Nanã, composta por Moacir Santos. Trilha de abertura do filme Ganga Zumba, ganhou letra de Mario Telles e foi gravada por uma centena de artistas, como Nara Leão, Sergio Mendes, Tim Maia e nomes do jazz, como Kenny Burrell e Gil Evans. Nanã é a orixá mais antiga das religiões afro-brasileiras e, na obra de Moacir Santos, é sua canção mais conhecida.
Da banda marcial para a orquestra
Nascido em 26 de julho de 1926, no sertão pernambucano, na região de Serra Talhada, o maestro aprendeu a tocar os instrumentos de banda marcial ainda criança. Em depoimento recuperado de um especial da Rádio MEC, em 2016, Moacir Santos relembra os primeiros contatos com a música.
“Quando eu entendi a vida, que era um ser vivo, a música também já estava comigo. A gente brincava de banda de música da cidade. Lá em Flores, uma cidade assim muito subdesenvolvida, era muito natural os meninos andarem nus, sem roupinha, até lá pelos 9, 10 anos de idade. Então, eu com 2 anos tinha a minha banda de meninos nus no meio da rua, tocando a marchinha. Então, esse foi o meu contato com música.”
Na adolescência, o músico fugiu de casa e rodou o Nordeste em orquestras de circo e bandas militares. Allan Abbadia, multi-instrumentista, arranjador, compositor e pesquisador, explica que as bandas de música têm uma importância na formação do país e que Moacir Santos veio dessa tradição.
“No Brasil Império, a gente tinha quase que a totalidade de músicos no país pessoas negras. As bandas eram o rádio da cidade, dos eventos de domingo. Então, o Moacir vem dessa tradição. Ao chegar aos grandes centros, ele já veio com essa tradição e ele acrescentou a isso os estudos mais aprofundados.”
Em João Pessoa, Moacir foi regente da banda da Rádio Tabajara e, depois, seguiu para o Rio de Janeiro, onde atuou na Rádio Nacional como saxofonista a partir de 1948 e, três anos depois, já era arranjador da orquestra da emissora.
Professores, parceiros e alunos
Foi aluno do maestro César Guerra-Peixe e professor de Baden Powell, João Donato, Paulinho da Viola, Airto Moreira, Roberto Menescal, entre outros. Andrea Ernest Dias, flautista e pesquisadora da obra do maestro, autora do livro Moacir Santos, ou os caminhos de um músico brasileiro, conta que o artista construiu uma identidade sonora a partir de pesquisas aprofundadas em teoria musical – o que fez com que músicos mais jovens quisessem aprender com o mestre.
“Para aprender música, né? De uma forma, para quem queria se aprofundar um pouco, sair do campo da intuição musical e saber, o Moacir se tornou essa pessoa que fazia essa ponte entre a erudição e o popular. Então ele se tornou dessa forma o professor de muita gente. Ele dava muita aula: Menescal, Carlos Lyra, Nara Leão.”
Ainda na década de 1960, Moacir arranjou álbuns de Elizeth Cardoso e Baden Powell, e compôs trilhas de filmes – parte delas lançadas no álbum Coisas de 1965. Considerado sua obra-prima, o trabalho reúne 10 composições, todas intituladas Coisa seguida da numeração. Andrea Ernest Dias comenta a genialidade do músico na fusão de ritmos afro-brasileiros com os sopros das bandas de jazz.
“O disco Coisas é uma síntese dessa trajetória dele. Ele tem referências das bandas filarmônicas, na instrumentação; das jazz bands também, que é uma tradição forte pelo país desde os anos 40; jazz bands que que ele também participou na sua região natal; e a questão jazzística, a improvisação, a pesquisa na Orquestra Afro-brasileira trazendo essa identidade afro-brasileira, uma marca mais forte nessa instrumentação. Esse é um trabalho que é um marco na história da música brasileira e traz o Moacir compositor na plenitude do seu domínio musical, de técnicas e de inspiração musical”.
Internacional
Em 1967, Moacir Santos deixou a Rádio Nacional e se mudou para os Estados Unidos, onde seguiu dando aulas e compondo trilhas de cinema, nas equipes dos maestros Henry Mancini e Lalo Schifrin. Na década de 70, lançou álbuns pela renomada gravadora de jazz Blue Note, entre eles, Maestro , indicado ao Grammy. Andrea Ernest Dias fala sobre o “mojo”, inovação trazida por Moacir neste trabalho.
“O mojo é uma espécie de síntese, assim, um sistema que ele criou, muito swingado, uma coisa que a gente ouve e imediatamente fala: ‘isso aí é ritmo do Moacir’. Então ele sistematizava as próprias células rítmicas e transformou esse ritmo num grande balanço, assim, numa marca pessoal mesmo. A ciranda, o maracatu, o disco Maestro marca uma nova etapa na vida do maestro Moacir Santos. Um disco realizado nos Estados Unidos e que traz ritmos intrigantes.
Legado
Em 1985, Moacir Santos foi homenageado no 1º Free Jazz Festival, e tocou na abertura do evento ao lado de Radamés Gnatalli.
A obra do maestro foi revisitada em 2001 pelos músicos Zé Nogueira e Mario Adnet no projeto Ouro Negro, com participações de Milton Nascimento, Gilberto Gil e do próprio Moacir Santos. O álbum Ouro Negro foi a porta de entrada para a obra do músico para ouvintes como o Allan Abbadia.
“Ele é fruto de uma genialidade incrível e uma intelectualidade conquistada através dos estudos, estudos também da nossa oralidade, da cultura afro-brasileira. Uma das características mais marcantes dele é o diálogo entre diferentes expressões artísticas da diáspora. Então ele vem juntando várias dessas expressões com a música erudita e ele conseguiu trazer essa essência da música afro-brasileira, afro-diaspórica, sem se tornar folclórico. Ele conseguiu usar técnicas de outros instrumentos. Ele faz uma coisa de funções assim, que é muito legal, que às vezes o baixo não tá tocando, não tá exercendo o papel do contrabaixo na música ocidental. Ele tá fazendo o papel do rum, que é o tambor mais grave”.
Neste ano, já aconteceram alguns eventos em comemoração ao centenário de Moacir Santos e, no mês de agosto, Allan Abbadia vai dar aulas sobre a obra de Moacir Santos no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc em São Paulo.
“É muito importante reverenciar a obra do Moacir Santos, não somente o nome, mas a estética. O público entender essa estética, entender o que ele quis dizer, isso é muito importante. Isso humaniza o artista. Ele faz uma obra que é à frente do seu tempo, mas uma obra que abre um campo de possibilidades para quem vier no futuro conseguir reler aquilo e se debruçar sobre aquilo. Quando eu era garoto. eu fiz workshop com ele, e ele falava: ser reconhecido no meu país é a minha maior alegria“.
Vinícius de Moraes, parceiro das composições Menino travesso e Se você disser que sim, homenageou Moacir Santos nos versos do Samba da Benção.
O músico morreu em 2006, aos 80 anos, em Los Angeles, onde morava, em decorrência de um derrame. Passados 20 anos desde sua partida, o centenário de nascimento de Moacir Santos, em 2026, é uma oportunidade de reverenciar a obra dele, que soube fundir tão bem ancestralidade e modernidade.
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