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Quem sustenta Cuiabá?

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*Por Rodrigo de Arruda e Sá

Toda vez que se discute o futuro de Cuiabá, a atenção costuma se voltar para o poder público. Debatemos obras, arrecadação, programas de governo e decisões administrativas. Raramente, porém, fazemos

a pergunta mais importante: quem sustenta, de fato, a economia da cidade todos os dias?

A resposta está longe dos gabinetes. Ela pode ser encontrada nas portas que se abrem todas as manhãs, nas pequenas empresas que atendem seus clientes, nos profissionais liberais, nos comerciantes, nos prestadores de serviço e nos milhares de trabalhadores que fazem a economia girar. São eles que geram empregos, pagam impostos e produzem a riqueza que financia a própria máquina pública.

Como contador e empresário, acompanho diariamente a realidade de quem empreende. Sei o quanto é difícil manter uma empresa funcionando em um ambiente marcado por alta carga tributária, burocracia e custos crescentes. Ainda assim, milhares de cuiabanos continuam acreditando na cidade, investindo seu patrimônio, assumindo riscos e criando oportunidades para outras pessoas.

É justamente por isso que o planejamento urbano não pode ser tratado como um detalhe administrativo. Toda decisão do poder público repercute diretamente na atividade econômica. Quando uma obra é mal planejada, quando uma via permanece interditada por meses ou quando não existe previsibilidade sobre o andamento de intervenções, quem paga essa conta é o empreendedor, que vê seus clientes desaparecerem e seu faturamento diminuir.

Cuiabá conhece bem essa realidade. Desde o início das obras relacionadas à Copa do Mundo de 2014, a cidade convive com sucessivas intervenções viárias, mudanças de projetos e promessas que nunca se concretizaram plenamente. O VLT ficou inacabado, foi substituído pelo BRT e, mais de uma década depois, continuamos convivendo com impactos que afetam diretamente moradores e empresas.

Ao longo desse período, muitos pequenos negócios não conseguiram sobreviver. Outros resistiram com enorme sacrifício, reduzindo equipes, renegociando dívidas e reinventando suas formas de atendimento.

Levantamento realizado pela Câmara de Dirigentes Lojistas de Cuiabá mostrou que, nas regiões afetadas pelas obras do BRT, 90% dos empresários relataram impactos negativos, 87% registraram queda no faturamento e 83% perceberam redução no fluxo de clientes. Em média, as vendas diminuíram 36%, um retrato eloquente do custo econômico da falta de planejamento.

Esses números representam muito mais do que estatísticas. Atrás de cada empresa existe uma família, funcionários, fornecedores e consumidores. Quando um pequeno negócio fecha suas portas, a cidade perde arrecadação, empregos, investimentos e, principalmente, confiança no futuro.

É importante compreender que desenvolvimento não depende apenas de grandes obras. Depende de previsibilidade, segurança jurídica e respeito ao contribuinte. O empresário consegue enfrentar a concorrência e até momentos de retração econômica, mas dificilmente suporta a incerteza permanente provocada por decisões mal planejadas.

Cuiabá possui uma economia dinâmica e um ambiente empresarial formado, em sua maioria, por pequenos negócios, responsáveis por parcela significativa da geração de emprego e renda na capital.

Fortalecer esse segmento não significa favorecer uma categoria específica; significa fortalecer toda a cidade, pois é dessa atividade econômica que surgem oportunidades, inovação e arrecadação para financiar os serviços públicos.

Precisamos abandonar a ideia de que desenvolvimento é responsabilidade exclusiva do Estado. O papel do poder público é criar condições para que quem produz possa trabalhar, investir e crescer. Quando a administração compreende essa missão, toda a sociedade é beneficiada.

Cuiabá tem todas as condições para se tornar uma cidade mais próspera. Mas isso exige uma mudança de perspectiva. Antes de pensar em novas promessas, precisamos cuidar daqueles que, todos os dias, sustentam silenciosamente a economia da capital. Respeitar quem produz riqueza não é apenas uma política econômica inteligente; é um compromisso com o futuro de Cuiabá.

*RODRIGO DE ARRUDA E SÁ é contador, bacharel em Direito, empresário e ex-vereador de Cuiabá.*

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Quando a máscara cai

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Por Kamila Garcia

Vivemos em um tempo em que a imagem ocupa um espaço cada vez maior na construção da nossa identidade. Nunca foi tão fácil mostrar ao mundo uma versão cuidadosamente editada de quem somos. As redes sociais exibem conquistas, viagens e momentos felizes, enquanto o ambiente profissional exige produtividade constante e controle emocional. Em todos os espaços, aprendemos rapidamente quais comportamentos geram aprovação e quais devem permanecer ocultos. O resultado é que passamos boa parte da vida administrando percepções.

Carl Gustav Jung chamou de Persona a máscara social que desenvolvemos para nos relacionar com o mundo. Ela é necessária e desempenha uma função importante na convivência humana. O problema surge quando nos confundimos com ela. Enquanto fortalecemos aquilo que consideramos admirável, empurramos para a inconsciência tudo o que ameaça essa imagem idealizada. Medos, ressentimentos, fragilidades e impulsos contraditórios são silenciados. Jung chamou esse território psíquico de Sombra.

A Sombra não é composta apenas por defeitos. Ela abriga tudo aquilo que foi rejeitado ao longo da vida: nossas fragilidades, mas também potenciais adormecidos, talentos esquecidos e partes autênticas sacrificadas para atender às expectativas de aceitação. O problema é que o que reprimimos não desaparece. Permanece vivo, aguardando uma oportunidade para se manifestar.

No cotidiano, costumamos manter certo equilíbrio. As relações seguem fluxos previsíveis e os conflitos parecem administráveis. É relativamente fácil ser gentil e paciente quando nada ameaça nossas certezas. Mas a vida não permanece para sempre em águas calmas. Em algum momento, somos confrontados por experiências que testam nossa estrutura interna. Uma perda significativa, uma crise financeira, uma doença ou uma profunda decepção podem abalar aquilo que acreditávamos ser.

Curiosamente, o sucesso também pode produzir esse efeito. O poder, o reconhecimento e a influência funcionam como um sol a pino: seu calor intenso derrete a Persona e revela aspectos antes ocultos.

É sob essa luz impiedosa que a máscara começa a ceder. Aquilo que permanecia escondido encontra espaço para emergir. A agressividade aparece onde havia cordialidade. O medo surge por trás da autoconfiança. Descobrimos que algumas virtudes talvez fossem apenas circunstanciais. As crises e os privilégios revelam quem somos quando os recursos habituais deixam de funcionar.

Embora desconfortável, esse encontro pode ser profundamente transformador. O amadurecimento não acontece quando eliminamos nossas sombras, mas quando nos tornamos conscientes delas. O que permanece inconsciente conduz nossas escolhas — o que é reconhecido pode ser compreendido e transformado. Em uma cultura que valoriza a felicidade constante e a performance impecável, admitir vulnerabilidades parece um fracasso. No entanto, a maturidade começa justamente quando acolhemos nossos contrastes.

O autoconhecimento não nasce da perfeição, mas da coragem de olhar para aquilo que existe além das aparências. Quando a máscara cai, não encontramos apenas limitações. Encontramos também a possibilidade de sermos inteiros. E é somente quando acolhemos o que escondemos que nos aproximamos de quem realmente somos.

*Kamila Garcia é bacharel em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, com pós-graduação em Psicanálise. Atualmente é estudante de Psicologia.

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