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A envergadura social: O Ter e o Ser!

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Por Soraya Medeiros

Vivemos tempos em que o valor das pessoas parece pesar mais na balança do “ter” do que na leveza do “ser”. A sociedade, essa platéia inquieta e exigente, aplaude o brilho das conquistas materiais, mas raramente se detém para admirar a serenidade de um coração em paz.

Desde cedo, somos instigados a medir nossa importância por símbolos — o carro, a casa bem localizada, o cargo que impõe respeito. A viagem internacional vira pano de fundo para selfies, o tênis de marca vale mais que um cumprimento ao porteiro. E as redes sociais, essas vitrines do ego, transformaram o cotidiano em uma competição silenciosa: quem parece mais feliz, mais bem-sucedido, mais completo. Eis o paradoxo: quanto mais o “ter” se amplia, mais o “ser” parece encolher.

A envergadura social — esse jeito de nos curvarmos às aparências — nos leva a esquecer que o verdadeiro tamanho de alguém está naquilo que o dinheiro não compra: a empatia que enxuga uma lágrima, a gentileza no trânsito caótico, o caráter que se mantém íntegro na sombra. O sociólogo Zygmunt Bauman, ao descrever a sociedade contemporânea, já alertava que o desejo de “ser” foi substituído pela obsessão de “consumir”, tornando as identidades tão efêmeras quanto os bens que adquirimos.

O “ter” pode abrir portas, mas é o “ser” que faz morada no coração dos outros. Quantas vezes o simples gesto de ouvir vale mais do que mil discursos? Quantas vezes um sorriso sincero ilumina mais do que o luxo de um salão?

Talvez estejamos precisando reaprender a olhar. A ver além do que reluz, além do que se exibe. Porque o “ter” pode ser temporário, mas o “ser” é o que permanece quando as cortinas do status se fecham.

No fim, o que permanece é o que somos — não o que exibimos.

*Soraya Medeiros é jornalista.

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No Brasil, o câncer ainda depende da renda para ser curado

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No Brasil, o acesso ao diagnóstico e ao tratamento do câncer ainda pode depender da condição financeira do paciente. Essa é uma realidade que expõe, de forma clara, as limitações das políticas públicas de saúde e a dificuldade histórica do país em garantir acesso igualitário ao tratamento.

Dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA) mostram a dimensão do problema: o país deve registrar cerca de 781 mil novos casos por ano entre 2026 e 2028, sendo aproximadamente 518 mil casos anuais, excluindo tumores de pele não melanoma. Mato Grosso deve registrar cerca de 8.680 novos casos de câncer por ano nesse mesmo triênio, totalizando cerca de 25,9 mil novos casos. Isso coloca Mato Grosso entre os estados com maiores taxas de incidência do país.

Na prática, pacientes de baixa renda frequentemente chegam ao sistema de saúde com a doença em estágio avançado, o que reduz significativamente as chances de cura. Já aqueles que têm acesso à medicina privada costumam descobrir o câncer mais cedo, quando o tratamento é mais eficaz.

O tratamento do câncer no Brasil expõe a ineficiência do Estado em proteger seus cidadãos. Em 2025, o brasileiro trabalhou 149 dias — cerca de cinco meses — apenas para pagar impostos. Aproximadamente 40,82% da renda foi destinada ao pagamento de tributos diretos e indiretos. Ainda assim, mesmo diante de uma das maiores cargas tributárias do mundo, os governos, ao longo de décadas, não implementaram medidas de saúde capazes de garantir condições eficazes e igualitárias de tratamento entre as diferentes classes sociais.

De forma objetiva, pode-se afirmar que a população mais pobre continuará morrendo mais, sofrendo mais, enfrentando maiores mutilações e limitações após o tratamento do câncer no país. Além disso, permanecerá mais tempo afastada de suas atividades profissionais e sociais, apresentará maiores taxas de aposentadoria precoce e menor produtividade, gerando impactos familiares e sociais relevantes. Em resumo, morrerá mais jovem, após enfrentar mais dor e sofrimento — consequências diretas de diagnósticos tardios e da incapacidade do Estado de oferecer uma saúde de melhor qualidade e mais equitativa.

É uma constatação que não pode mais ser ignorada: no Brasil, o tempo do diagnóstico ainda define quem tem mais chances de sobreviver.

Isso ocorre justamente em um momento de importantes avanços na medicina. Hoje, contamos com tratamentos mais personalizados, imunoterapia e o uso crescente de tecnologias para diagnóstico precoce. No entanto, o acesso a essas inovações ainda não é igual para todos.

O acesso ao diagnóstico precoce e ao tratamento adequado não pode depender da renda. Trata-se de um direito e de uma responsabilidade direta do Estado.

O Dia Mundial de Combate ao Câncer, em 8 de abril, reforça a urgência desse debate. Não basta avançar na tecnologia — é preciso garantir que ela chegue a toda a população.

Em um ano eleitoral, essa realidade precisa deixar de ser apenas um diagnóstico e se tornar prioridade. É fundamental que propostas concretas para o enfrentamento do câncer — especialmente no acesso ao diagnóstico precoce — estejam no centro do debate público.

Como médico oncologista, professor e cirurgião, reforço: nenhum avanço substitui a prevenção. A alimentação equilibrada continua sendo um fator essencial na redução do risco de câncer, inclusive para quem já enfrentou a doença.

O Brasil vive um paradoxo entre avanço científico e desigualdade no acesso. Enfrentar o câncer exige mais do que tecnologia — exige decisão, investimento e compromisso com a equidade.

O enfrentamento do câncer no país não é apenas um desafio médico. É, sobretudo, uma escolha política — e essa escolha define, na prática, quem terá acesso à vida.

Dr. Wilson Garcia, Médico oncologista, professor e cirurgião, combatente da mortalidade por câncer no país.

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