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Além do placar: uma leitura sistêmica da derrota da Seleção Brasileira

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A eliminação da Seleção Brasileira diante da Noruega despertou inúmeras análises. Houve quem apontasse falhas táticas, quem responsabilizasse jogadores, comissão técnica ou decisões específicas da partida. Tudo isso faz parte do debate esportivo. No entanto, como mentora sistêmica, escolho olhar para além do placar.

Na visão sistêmica, nenhum resultado nasce de um único momento. O placar é apenas a manifestação visível de um processo muito mais amplo, construído por relações, escolhas, liderança, comunicação, cultura e pela forma como cada integrante ocupa o seu lugar dentro do sistema.

Essa perspectiva nos convida a compreender que o sistema é sempre maior do que o indivíduo.

Podemos admirar talentos extraordinários. O Brasil sempre revelou jogadores capazes de decidir partidas e inspirar gerações. Mas, por maior que seja o talento individual, ele dificilmente sustenta resultados quando o coletivo perde sua conexão, sua confiança e sua capacidade de atuar como um único organismo.

Outro aspecto importante é compreender que o resultado nunca nasce no último minuto de jogo.

Ele começa a ser construído muito antes do apito inicial. Surge na preparação, na clareza dos papéis, na qualidade da liderança, no ambiente emocional da equipe, na confiança entre seus integrantes e na forma como cada decisão fortalece — ou enfraquece — o sistema.

Essa é uma realidade que ultrapassa o esporte.

Nas empresas, equipes altamente qualificadas também podem apresentar resultados inferiores quando falta alinhamento. Nas famílias, muitas vezes o conflito visível é apenas o reflexo de dinâmicas mais profundas que permaneceram invisíveis durante anos. Em qualquer organização humana, os resultados são consequência do funcionamento do sistema.

Há ainda um terceiro aprendizado.

Na perspectiva sistêmica, toda derrota carrega uma informação valiosa. Ela revela aspectos que permaneciam ocultos durante as vitórias. Em vez de buscar culpados, torna-se mais produtivo perguntar: o que este resultado veio mostrar? O que ainda não foi visto? O que precisa ser transformado para que um novo resultado possa emergir?

Essa mudança de olhar altera completamente a qualidade das decisões futuras.

Enquanto a busca por culpados tende a fragmentar equipes e fortalecer julgamentos, a busca pela compreensão fortalece a consciência, o aprendizado e a evolução coletiva.

Independentemente da nacionalidade do treinador, dos nomes em campo ou das circunstâncias da partida, existe um princípio que permanece verdadeiro: nenhuma liderança produz resultados sozinha. O treinador exerce um papel essencial ao oferecer direção, estratégia, organização e desenvolvimento do grupo. Porém, o desempenho final sempre será consequência da interação entre liderança, atletas, comissão técnica, cultura, preparação e contexto.

Por isso, reduzir uma derrota a uma única pessoa significa simplificar uma realidade muito mais complexa.

Talvez a maior contribuição da visão sistêmica seja justamente essa: trocar a pergunta “Quem errou?” por uma pergunta muito mais poderosa:

O que este sistema está tentando revelar?

Quando aprendemos a fazer essa pergunta, deixamos de olhar apenas para o futebol.

Passamos a compreender empresas, famílias, organizações e a própria vida com mais consciência, menos julgamentos e maior capacidade de transformação.

Porque toda mudança consistente começa quando conseguimos enxergar além do óbvio.

 

Por Simone Bernardino, Mentora de Empresários, idealizadora do Tour Semear

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Quando a máscara cai

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Por Kamila Garcia

Vivemos em um tempo em que a imagem ocupa um espaço cada vez maior na construção da nossa identidade. Nunca foi tão fácil mostrar ao mundo uma versão cuidadosamente editada de quem somos. As redes sociais exibem conquistas, viagens e momentos felizes, enquanto o ambiente profissional exige produtividade constante e controle emocional. Em todos os espaços, aprendemos rapidamente quais comportamentos geram aprovação e quais devem permanecer ocultos. O resultado é que passamos boa parte da vida administrando percepções.

Carl Gustav Jung chamou de Persona a máscara social que desenvolvemos para nos relacionar com o mundo. Ela é necessária e desempenha uma função importante na convivência humana. O problema surge quando nos confundimos com ela. Enquanto fortalecemos aquilo que consideramos admirável, empurramos para a inconsciência tudo o que ameaça essa imagem idealizada. Medos, ressentimentos, fragilidades e impulsos contraditórios são silenciados. Jung chamou esse território psíquico de Sombra.

A Sombra não é composta apenas por defeitos. Ela abriga tudo aquilo que foi rejeitado ao longo da vida: nossas fragilidades, mas também potenciais adormecidos, talentos esquecidos e partes autênticas sacrificadas para atender às expectativas de aceitação. O problema é que o que reprimimos não desaparece. Permanece vivo, aguardando uma oportunidade para se manifestar.

No cotidiano, costumamos manter certo equilíbrio. As relações seguem fluxos previsíveis e os conflitos parecem administráveis. É relativamente fácil ser gentil e paciente quando nada ameaça nossas certezas. Mas a vida não permanece para sempre em águas calmas. Em algum momento, somos confrontados por experiências que testam nossa estrutura interna. Uma perda significativa, uma crise financeira, uma doença ou uma profunda decepção podem abalar aquilo que acreditávamos ser.

Curiosamente, o sucesso também pode produzir esse efeito. O poder, o reconhecimento e a influência funcionam como um sol a pino: seu calor intenso derrete a Persona e revela aspectos antes ocultos.

É sob essa luz impiedosa que a máscara começa a ceder. Aquilo que permanecia escondido encontra espaço para emergir. A agressividade aparece onde havia cordialidade. O medo surge por trás da autoconfiança. Descobrimos que algumas virtudes talvez fossem apenas circunstanciais. As crises e os privilégios revelam quem somos quando os recursos habituais deixam de funcionar.

Embora desconfortável, esse encontro pode ser profundamente transformador. O amadurecimento não acontece quando eliminamos nossas sombras, mas quando nos tornamos conscientes delas. O que permanece inconsciente conduz nossas escolhas — o que é reconhecido pode ser compreendido e transformado. Em uma cultura que valoriza a felicidade constante e a performance impecável, admitir vulnerabilidades parece um fracasso. No entanto, a maturidade começa justamente quando acolhemos nossos contrastes.

O autoconhecimento não nasce da perfeição, mas da coragem de olhar para aquilo que existe além das aparências. Quando a máscara cai, não encontramos apenas limitações. Encontramos também a possibilidade de sermos inteiros. E é somente quando acolhemos o que escondemos que nos aproximamos de quem realmente somos.

*Kamila Garcia é bacharel em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, com pós-graduação em Psicanálise. Atualmente é estudante de Psicologia.

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