Opinião
Envelhecer é permanecer: um compromisso que precisa ser coletivo
Opinião
Há algo profundamente bonito no ato de envelhecer. As marcas no rosto, as histórias acumuladas, a calmaria que substitui a pressa. Mas, apesar dessa beleza silenciosa, muitas pessoas que chegam à fase da aposentadoria convivem com um sentimento que não deveria existir, o de se tornarem invisíveis. Como se, de repente, tudo o que construíram, ensinaram e viveram deixasse de ter espaço no presente.
Envelhecer não é perder relevância. Envelhecer é permanecer. É continuar fazendo parte da cidade, das decisões, dos vínculos e das relações. Ainda assim, muitos aposentados enfrentam o peso do isolamento e do etarismo, um preconceito que se disfarça em pequenas atitudes e que limita, desvaloriza e exclui.
É por isso que o combate ao etarismo precisa ganhar força em todas as esferas, nos lares, nas empresas e no poder público. Envelhecer faz parte da vida, e a dignidade deve acompanhar cada etapa dessa jornada.
Pensando nisso e ouvindo relatos de muitos idosos cuiabanos, apresentei na Câmara Municipal o projeto que originou a lei que autoriza o Executivo a instituir o Programa de Integração Geracional, sancionada em julho de 2025. A proposta nasce de uma convicção simples: nenhuma geração existe sozinha. Quando aproximamos crianças, jovens e idosos, todos aprendem, todos se fortalecem, todos ganham.
É dentro dessa perspectiva que o Dia Nacional dos Aposentados, celebrado em 24 de janeiro, ganha mais significado. A data não existe apenas para homenagear quem trabalhou por décadas, ela reforça a necessidade de garantir que essas pessoas continuem vivendo com respeito, acolhimento e oportunidades.
A lei estabelece diretrizes que vão desde atividades culturais como música, teatro, dança e artesanato, até ações educativas e de convivência, como alfabetização digital, oficinas de escrita, exercícios físicos e palestras de promoção à saúde. Um dos pontos mais transformadores é a tutoria entre gerações, com jovens ensinando tecnologia aos idosos e idosos transmitindo saberes, histórias e experiências. É assim que se devolve pertencimento a quem já contribuiu tanto para a sociedade.
O isolamento não é inevitável, ele é resultado de um modelo de cidade que não foi pensado para dialogar com o envelhecimento. Criar políticas públicas que incentivem a convivência não é apenas combater o etarismo, é reconstruir o tecido social, resgatando respeito, afeto e sentido de comunidade.
Neste dia, reafirmo um compromisso que carrego comigo: envelhecer não deve ser sinônimo de abandono. Deve ser sinônimo de continuidade, cuidado e reconhecimento. Que Cuiabá avance na implementação do Programa de Integração Geracional e que possamos, como sociedade, reafirmar que cada idoso tem lugar, voz, história e futuro.
*Katiuscia Manteli é jornalista e vereadora em Cuiabá (PSB).
Opinião
A violência contra a pessoa idosa também acontece no bolso
Valéria Lima
O Brasil está envelhecendo, e essa transformação exige um olhar cada vez mais atento para a proteção da pessoa idosa. Além do acesso à saúde e à previdência, é preciso assegurar que milhões de brasileiros envelheçam com autonomia, segurança e respeito aos seus direitos. Nesse contexto, a violência patrimonial e financeira tornou-se um dos desafios mais preocupantes da atualidade.
Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) ajudam a dimensionar esse desafio. O Censo Demográfico de 2022 identificou 32,1 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais, o equivalente a 15,8% da população. Em comparação com 2010, esse contingente cresceu 56%, reforçando a necessidade de ampliar políticas públicas e mecanismos de proteção voltados à população idosa.
O crescimento dessa população também evidencia outro desafio: o aumento dos casos de violência contra pessoas idosas. Em 2025, a Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos registrou 59.134 denúncias envolvendo esse público, sendo 66% das vítimas mulheres. Entre as diversas formas de violência, a patrimonial e financeira merece atenção especial por comprometer justamente a renda que garanta a subsistência, a autonomia e a qualidade de vida de milhares de aposentados e pensionistas.
A violência patrimonial ocorre quando terceiros utilizam o patrimônio ou a renda da pessoa idosa de forma indevida, mediante fraude, abuso de confiança, coação ou aproveitamento de sua condição de vulnerabilidade. Isso pode ocorrer por meio de empréstimos consignados não autorizados, descontos indevidos em benefícios previdenciários, golpes bancários, falsificação de assinaturas ou, ainda, pela atuação abusiva de familiares ou pessoas próximas.
A legislação brasileira reconhece essa vulnerabilidade. A Constituição Federal assegura proteção especial à pessoa idosa, enquanto o Estatuto da Pessoa Idosa (Lei nº 10.741/2003) estabelece garantias voltadas à preservação de sua dignidade, autonomia e patrimônio. O aumento desses casos tem motivado, inclusive, a discussão de novas medidas legislativas para fortalecer a prevenção, a identificação e o enfrentamento da violência patrimonial.
Na prática, muitos idosos só descobrem que foram vítimas quando percebem a redução inesperada do valor da aposentadoria ou da pensão. Em outros casos, desconhecem completamente a existência de contratos de empréstimos ou de descontos realizados em seus benefícios. Situações como essas não devem ser tratadas como algo “normal” ou inevitável. Ao contrário, exigem apuração e providências imediatas.
Algumas medidas simples podem fazer a diferença: acompanhar regularmente o extrato do benefício previdenciário, desconfiar de ligações oferecendo crédito fácil, nunca fornecer senhas ou códigos de confirmação por telefone e buscar esclarecimentos sempre que surgir qualquer movimentação financeira desconhecida. A informação continua sendo uma das principais formas de prevenção.
Quando a fraude já ocorreu, o ordenamento jurídico oferece mecanismos para proteger a pessoa idosa. Dependendo do caso, é possível contestar administrativamente descontos indevidos, buscar a nulidade de contratos firmados sem consentimento, responsabilizar instituições financeiras e pleitear judicialmente a reparação dos prejuízos sofridos.
Na advocacia previdenciária, muitas vezes o processo vai além da discussão sobre um contrato ou um benefício. Em inúmeros casos, o que se busca preservar é a tranquilidade financeira de pessoas que trabalharam durante décadas e dependem dessa renda para custear medicamentos, alimentação, moradia e outras despesas essenciais.
Neste Dia dos Avós, talvez o melhor presente não esteja apenas nas homenagens, mas também na atenção. Conversar sobre golpes, acompanhar os extratos dos benefícios, orientar sobre cuidados nas relações financeiras e buscar auxílio jurídico diante de qualquer irregularidade são atitudes que demonstram respeito e responsabilidade.
Envelhecer com dignidade é um direito assegurado pela Constituição e pela legislação brasileira. Mais do que reparar prejuízos, proteger a pessoa idosa significa preservar sua autonomia, sua segurança e o respeito à história construída ao longo de uma vida inteira. Afinal, cuidar de quem sempre cuidou de nós também é garantir que seus direitos sejam efetivamente respeitados.
Valéria Lima, advogada especialista em Direito Previdenciário, Regime Geral (iniciativa privada) e Próprio (servidores públicos), MBA em Gestão de Pessoas e membro do Instituto Brasileiro de Direito Previdenciário (IBDP).
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