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IA fala inglês. E você?

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Por Marcelo Soares

 

A inteligência artificial derrubou parte das barreiras que dificultavam a comunicação entre pessoas de idiomas diferentes. Em poucos segundos, ferramentas disponíveis no celular conseguem traduzir textos, revisar documentos e interpretar conversas. Essa facilidade, porém, tem alimentado uma falsa conclusão no mercado de trabalho: a de que aprender inglês deixou de ser necessário.

A tecnologia pode traduzir o conteúdo de uma mensagem, mas ainda não substitui a autonomia exigida em uma reunião estratégica, em uma negociação ou em um encontro profissional. Nesses ambientes, comunicar-se não é apenas converter palavras de um idioma para outro. É perceber uma mudança de tom, compreender uma referência cultural, responder a uma pergunta inesperada e sustentar um argumento com segurança.

Essa discussão ganha relevância diante da realidade brasileira. O Índice de Proficiência em Inglês da EF de 2025 colocou o Brasil na 75ª posição entre 123 países e regiões avaliados. Ficamos com 482 pontos, abaixo da média global de 488, e permanecemos na faixa considerada de baixa proficiência. Embora tenha avançado seis colocações em relação ao ano anterior, o resultado mostra que o idioma ainda representa uma barreira para parte expressiva dos profissionais brasileiros.

A chegada da inteligência artificial não elimina essa dificuldade. Em determinadas tarefas, como redigir um e-mail, revisar uma apresentação ou compreender um documento, a tecnologia é uma excelente aliada. O problema começa quando o profissional passa a confundir acesso à tradução com domínio da comunicação.

Em uma reunião internacional, por exemplo, uma tradução pode reproduzir corretamente o sentido geral de uma fala e ainda perder elementos decisivos: ironia, intenção, hesitação, informalidade ou escolha cultural de determinadas expressões. No ambiente corporativo, essas nuances ajudam a interpretar o posicionamento de um cliente, identificar uma objeção e perceber se existe espaço para avançar em uma negociação.

O mesmo ocorre no networking. Congressos, viagens e jantares de negócios são ambientes em que as conexões surgem de maneira espontânea. Mesmo quando a tradução simultânea está disponível, depender integralmente dela pode reduzir a presença do profissional na conversa. Quem domina o idioma consegue reagir, improvisar, demonstrar personalidade e construir confiança sem intermediários.

Há ainda um risco menos evidente, quem não conhece inglês tem dificuldade para avaliar a qualidade da resposta produzida pela própria IA. A ferramenta pode apresentar uma expressão inadequada, ignorar o contexto ou produzir uma informação imprecisa. Sem repertório linguístico, o usuário não consegue identificar o erro e passa a confiar em um conteúdo que não sabe validar.

Isso não significa estabelecer uma disputa entre inteligência artificial e inglês. Ao contrário, o profissional mais preparado será justamente aquele que conseguir combinar as duas competências. A IA pode apoiar o aprendizado, ampliar o vocabulário, simular conversas e oferecer agilidade. O conhecimento do idioma, por sua vez, permite analisar os resultados, fazer escolhas e preservar a intenção de quem se comunica.

Essa combinação está alinhada às transformações do mercado. O Relatório sobre o Futuro dos Empregos 2025, do Fórum Econômico Mundial, aponta que 86% dos empregadores esperam que a inteligência artificial e as tecnologias de processamento de informações transformem seus negócios até 2030. O mesmo levantamento destaca que habilidades humanas, como liderança, colaboração, pensamento criativo, flexibilidade e capacidade de influência, continuarão essenciais.

A inteligência artificial não decretou o fim do inglês. Apenas tornou mais evidente a diferença entre receber uma tradução e estar verdadeiramente preparado para uma oportunidade.

A IA pode falar por você. Mas, quando estiver em jogo a sua carreira, ainda será melhor falar por si mesmo.

*Marcelo Soares é especialista em carreiras globais, professor de inglês e CEO da Becourse escola de idiomas.

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Opinião

A violência contra a pessoa idosa também acontece no bolso

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Valéria Lima

 

O Brasil está envelhecendo, e essa transformação exige um olhar cada vez mais atento para a proteção da pessoa idosa. Além do acesso à saúde e à previdência, é preciso assegurar que milhões de brasileiros envelheçam com autonomia, segurança e respeito aos seus direitos. Nesse contexto, a violência patrimonial e financeira tornou-se um dos desafios mais preocupantes da atualidade.

Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) ajudam a dimensionar esse desafio. O Censo Demográfico de 2022 identificou 32,1 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais, o equivalente a 15,8% da população. Em comparação com 2010, esse contingente cresceu 56%, reforçando a necessidade de ampliar políticas públicas e mecanismos de proteção voltados à população idosa.

O crescimento dessa população também evidencia outro desafio: o aumento dos casos de violência contra pessoas idosas. Em 2025, a Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos registrou 59.134 denúncias envolvendo esse público, sendo 66% das vítimas mulheres. Entre as diversas formas de violência, a patrimonial e financeira merece atenção especial por comprometer justamente a renda que garanta a subsistência, a autonomia e a qualidade de vida de milhares de aposentados e pensionistas.

A violência patrimonial ocorre quando terceiros utilizam o patrimônio ou a renda da pessoa idosa de forma indevida, mediante fraude, abuso de confiança, coação ou aproveitamento de sua condição de vulnerabilidade. Isso pode ocorrer por meio de empréstimos consignados não autorizados, descontos indevidos em benefícios previdenciários, golpes bancários, falsificação de assinaturas ou, ainda, pela atuação abusiva de familiares ou pessoas próximas.

A legislação brasileira reconhece essa vulnerabilidade. A Constituição Federal assegura proteção especial à pessoa idosa, enquanto o Estatuto da Pessoa Idosa (Lei nº 10.741/2003) estabelece garantias voltadas à preservação de sua dignidade, autonomia e patrimônio. O aumento desses casos tem motivado, inclusive, a discussão de novas medidas legislativas para fortalecer a prevenção, a identificação e o enfrentamento da violência patrimonial.

Na prática, muitos idosos só descobrem que foram vítimas quando percebem a redução inesperada do valor da aposentadoria ou da pensão. Em outros casos, desconhecem completamente a existência de contratos de empréstimos ou de descontos realizados em seus benefícios. Situações como essas não devem ser tratadas como algo “normal” ou inevitável. Ao contrário, exigem apuração e providências imediatas.

Algumas medidas simples podem fazer a diferença: acompanhar regularmente o extrato do benefício previdenciário, desconfiar de ligações oferecendo crédito fácil, nunca fornecer senhas ou códigos de confirmação por telefone e buscar esclarecimentos sempre que surgir qualquer movimentação financeira desconhecida. A informação continua sendo uma das principais formas de prevenção.

Quando a fraude já ocorreu, o ordenamento jurídico oferece mecanismos para proteger a pessoa idosa. Dependendo do caso, é possível contestar administrativamente descontos indevidos, buscar a nulidade de contratos firmados sem consentimento, responsabilizar instituições financeiras e pleitear judicialmente a reparação dos prejuízos sofridos.

Na advocacia previdenciária, muitas vezes o processo vai além da discussão sobre um contrato ou um benefício. Em inúmeros casos, o que se busca preservar é a tranquilidade financeira de pessoas que trabalharam durante décadas e dependem dessa renda para custear medicamentos, alimentação, moradia e outras despesas essenciais.

Neste Dia dos Avós, talvez o melhor presente não esteja apenas nas homenagens, mas também na atenção. Conversar sobre golpes, acompanhar os extratos dos benefícios, orientar sobre cuidados nas relações financeiras e buscar auxílio jurídico diante de qualquer irregularidade são atitudes que demonstram respeito e responsabilidade.

Envelhecer com dignidade é um direito assegurado pela Constituição e pela legislação brasileira. Mais do que reparar prejuízos, proteger a pessoa idosa significa preservar sua autonomia, sua segurança e o respeito à história construída ao longo de uma vida inteira. Afinal, cuidar de quem sempre cuidou de nós também é garantir que seus direitos sejam efetivamente respeitados.

 

Valéria Lima, advogada especialista em Direito Previdenciário, Regime Geral (iniciativa privada) e Próprio (servidores públicos), MBA em Gestão de Pessoas e membro do Instituto Brasileiro de Direito Previdenciário (IBDP).

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