Opinião
Os desafios emocionais do câncer de cabeça e pescoço
Opinião
Por Dr. Rogério Leite
Receber um diagnóstico de câncer é, por si só, um dos momentos mais difíceis da vida. Quando a doença atinge a região da cabeça e pescoço, os impactos se estendem além do físico, atingindo diretamente a identidade, a comunicação e as relações sociais do paciente.
Funções básicas como falar, comer, respirar e sorrir podem ser comprometidas. Cirurgias, radioterapia e quimioterapia frequentemente causam alterações visíveis na face, no pescoço e na voz. Essas mudanças refletem diretamente na autoestima. Olhar no espelho pode se tornar um lembrete doloroso da doença. A imagem corporal, profundamente ligada à percepção de si, é abalada, exigindo uma dolorosa adaptação ao “novo eu”.
A dificuldade para falar (disfonia ou afonia), engolir (disfagia) e expressar emoções faz com que muitos pacientes evitem convívios sociais. Reuniões familiares, refeições em grupo ou simples conversas do dia a dia passam a ser evitadas. O medo do julgamento, a frustração de não conseguir se expressar e a sensação de não pertencimento geram isolamento, tristeza profunda e, muitas vezes, depressão.
O medo da recorrência é constante. A ansiedade diante de exames e a incerteza sobre o futuro mantêm o paciente em estado de alerta. Mesmo após a remissão, muitos convivem com sintomas emocionais duradouros, como insônia, flashbacks, hipervigilância e sentimentos de vulnerabilidade. Em alguns casos, pode surgir a síndrome do estresse pós-traumático (TEPT).
Diante desses desafios, é fundamental garantir suporte psicológico adequado. Como destacou a Dra. Jimmie C. Holland, pioneira da psico-oncologia: “A intervenção psicossocial no câncer não é um luxo, mas uma parte essencial do cuidado oncológico.” Grupos de apoio, psicoterapia e escuta qualificada são ferramentas importantes para reduzir o sofrimento emocional e fortalecer a resiliência do paciente.
A espiritualidade, independentemente da religião, também pode ser uma fonte de conforto e significado. E cabe aos profissionais de saúde — médicos, enfermeiros, fonoaudiólogos, nutricionistas, psicólogos — atuarem de forma integrada para garantir um cuidado verdadeiramente humano e integral.
Enfrentar o câncer de cabeça e pescoço é uma jornada silenciosa de coragem. Mesmo quando a voz falha e o sorriso se esconde, esses pacientes nos ensinam sobre força, superação e a potência do espírito humano.
*Dr. Rogério Leite é cirurgião oncológico, especialista em cirurgia de cabeça e pescoço, com foco em câncer de tireoide e tireoidite de Hashimoto. Com mais de 20 mil cirurgias realizadas, alia prática clínica, ciência e prevenção para promover saúde com excelência.
Opinião
A violência contra a pessoa idosa também acontece no bolso
Valéria Lima
O Brasil está envelhecendo, e essa transformação exige um olhar cada vez mais atento para a proteção da pessoa idosa. Além do acesso à saúde e à previdência, é preciso assegurar que milhões de brasileiros envelheçam com autonomia, segurança e respeito aos seus direitos. Nesse contexto, a violência patrimonial e financeira tornou-se um dos desafios mais preocupantes da atualidade.
Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) ajudam a dimensionar esse desafio. O Censo Demográfico de 2022 identificou 32,1 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais, o equivalente a 15,8% da população. Em comparação com 2010, esse contingente cresceu 56%, reforçando a necessidade de ampliar políticas públicas e mecanismos de proteção voltados à população idosa.
O crescimento dessa população também evidencia outro desafio: o aumento dos casos de violência contra pessoas idosas. Em 2025, a Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos registrou 59.134 denúncias envolvendo esse público, sendo 66% das vítimas mulheres. Entre as diversas formas de violência, a patrimonial e financeira merece atenção especial por comprometer justamente a renda que garanta a subsistência, a autonomia e a qualidade de vida de milhares de aposentados e pensionistas.
A violência patrimonial ocorre quando terceiros utilizam o patrimônio ou a renda da pessoa idosa de forma indevida, mediante fraude, abuso de confiança, coação ou aproveitamento de sua condição de vulnerabilidade. Isso pode ocorrer por meio de empréstimos consignados não autorizados, descontos indevidos em benefícios previdenciários, golpes bancários, falsificação de assinaturas ou, ainda, pela atuação abusiva de familiares ou pessoas próximas.
A legislação brasileira reconhece essa vulnerabilidade. A Constituição Federal assegura proteção especial à pessoa idosa, enquanto o Estatuto da Pessoa Idosa (Lei nº 10.741/2003) estabelece garantias voltadas à preservação de sua dignidade, autonomia e patrimônio. O aumento desses casos tem motivado, inclusive, a discussão de novas medidas legislativas para fortalecer a prevenção, a identificação e o enfrentamento da violência patrimonial.
Na prática, muitos idosos só descobrem que foram vítimas quando percebem a redução inesperada do valor da aposentadoria ou da pensão. Em outros casos, desconhecem completamente a existência de contratos de empréstimos ou de descontos realizados em seus benefícios. Situações como essas não devem ser tratadas como algo “normal” ou inevitável. Ao contrário, exigem apuração e providências imediatas.
Algumas medidas simples podem fazer a diferença: acompanhar regularmente o extrato do benefício previdenciário, desconfiar de ligações oferecendo crédito fácil, nunca fornecer senhas ou códigos de confirmação por telefone e buscar esclarecimentos sempre que surgir qualquer movimentação financeira desconhecida. A informação continua sendo uma das principais formas de prevenção.
Quando a fraude já ocorreu, o ordenamento jurídico oferece mecanismos para proteger a pessoa idosa. Dependendo do caso, é possível contestar administrativamente descontos indevidos, buscar a nulidade de contratos firmados sem consentimento, responsabilizar instituições financeiras e pleitear judicialmente a reparação dos prejuízos sofridos.
Na advocacia previdenciária, muitas vezes o processo vai além da discussão sobre um contrato ou um benefício. Em inúmeros casos, o que se busca preservar é a tranquilidade financeira de pessoas que trabalharam durante décadas e dependem dessa renda para custear medicamentos, alimentação, moradia e outras despesas essenciais.
Neste Dia dos Avós, talvez o melhor presente não esteja apenas nas homenagens, mas também na atenção. Conversar sobre golpes, acompanhar os extratos dos benefícios, orientar sobre cuidados nas relações financeiras e buscar auxílio jurídico diante de qualquer irregularidade são atitudes que demonstram respeito e responsabilidade.
Envelhecer com dignidade é um direito assegurado pela Constituição e pela legislação brasileira. Mais do que reparar prejuízos, proteger a pessoa idosa significa preservar sua autonomia, sua segurança e o respeito à história construída ao longo de uma vida inteira. Afinal, cuidar de quem sempre cuidou de nós também é garantir que seus direitos sejam efetivamente respeitados.
Valéria Lima, advogada especialista em Direito Previdenciário, Regime Geral (iniciativa privada) e Próprio (servidores públicos), MBA em Gestão de Pessoas e membro do Instituto Brasileiro de Direito Previdenciário (IBDP).
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