Opinião

Superlotação: Um desafio diário para a Polícia Penal

Publicado em

Opinião

Por: Lucivaldo Vieira de Sousa

Presidente do SINDSPPEN-MT

 

O sistema penitenciário de Mato Grosso é, hoje, uma panela de pressão prestes a explodir. Para compreendermos a gravidade da situação enfrentada pelos nossos policiais penais, precisamos olhar primeiro para o que ocorre dentro das galerias. Nos últimos três anos, a população carcerária do estado cresceu assustadores 41%. Saltamos de um cenário de 11 mil presos em 2023 para mais de 16 mil em fevereiro de 2026.

A realidade nas unidades é de um sufocamento físico, mental e institucional. Das 41 unidades prisionais do estado, apenas 6 delas operam dentro de uma margem aceitável. O restante sobrevive sob o peso de uma superlotação degradante – 85% das nossas cadeias estão superlotadas, transformando celas em depósitos humanos onde o controle se torna um desafio.

É nesse cenário de caos que o policial penal é jogado para trabalhar. Se o número de presos disparou, o efetivo de servidores permaneceu estagnado. Desde 2016, o aumento foi de apenas 102 novos servidores, enquanto a massa carcerária cresceu aos milhares. Essa disparidade cria situações que beiram o desumano para quem veste a farda.

Como falar em segurança e ressocialização quando na Penitenciária Central do Estado (PCE), em Cuiabá, temos plantões com apenas 3 policiais na contenção para monitorar um universo de mais de 3.640 mil? Como garantir a integridade de 9 policiais na unidade prisional Ahmenon Lemos Dantas, Várzea Grande, que precisam cuidar da movimentação interna e externa de mais de 1.200 pessoas privadas de liberdade? É uma conta que não fecha e que coloca a vida do servidor em risco constante.

Essa desestruturação acarreta, injustamente, uma culpa sobre os ombros do policial penal, que muitas vezes é acusado de maus tratos e negligência. Os conflitos, tumultos e motins que ocorrem dentro das celas superlotadas são frutos da falta de estrutura e condições mínimas para os próprios privados de liberdade. O servidor, que já trabalha no limite, acaba se tornando a tampa dessa panela de pressão, sendo responsabilizado por episódios de violência que são consequências diretas do abandono do sistema.

O policial penal trabalha hoje no limite da sua sanidade e resistência física e psicológica. A recente aprovação da jornada extraordinária traz um alento financeiro momentâneo, mas não resolve a raiz do problema: a valorização salarial, tendo em vista que dentre as forças segurança pública é a categoria que possui maior número de atribuições (48).

Trabalhar de forma desumana, em ambientes insalubres e com a responsabilidade de conter multidões com um efetivo irrisório, é o que a categoria enfrenta hoje em Mato Grosso. Não podemos aceitar que a gestão do sistema penitenciário seja feita na base do improviso e do sacrifício da saúde do servidor.

Nesse fogo cruzado, os diretores das unidades prisionais vivem um dilema constante: evitar que as unidades prisionais se transformem em centros de comando para facções criminosas e, ainda, manter a segurança dentro e fora dos presídios.

A segurança pública não se faz apenas com grades e concreto, mas com investimento real no seu efetivo. Precisamos urgentemente de recomposição e de um olhar digno para aqueles que, mesmo em condições adversas, mantêm a ordem no sistema. O estado não pode mais ignorar que, por trás de cada muralha superlotada, existem homens e mulheres sendo levados ao seu limite físico e mental.

ARTIGO DE OPINIÃO

 

COMENTE ABAIXO:
Propaganda

Opinião

A violência contra a pessoa idosa também acontece no bolso

Publicados

em

Valéria Lima

 

O Brasil está envelhecendo, e essa transformação exige um olhar cada vez mais atento para a proteção da pessoa idosa. Além do acesso à saúde e à previdência, é preciso assegurar que milhões de brasileiros envelheçam com autonomia, segurança e respeito aos seus direitos. Nesse contexto, a violência patrimonial e financeira tornou-se um dos desafios mais preocupantes da atualidade.

Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) ajudam a dimensionar esse desafio. O Censo Demográfico de 2022 identificou 32,1 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais, o equivalente a 15,8% da população. Em comparação com 2010, esse contingente cresceu 56%, reforçando a necessidade de ampliar políticas públicas e mecanismos de proteção voltados à população idosa.

O crescimento dessa população também evidencia outro desafio: o aumento dos casos de violência contra pessoas idosas. Em 2025, a Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos registrou 59.134 denúncias envolvendo esse público, sendo 66% das vítimas mulheres. Entre as diversas formas de violência, a patrimonial e financeira merece atenção especial por comprometer justamente a renda que garanta a subsistência, a autonomia e a qualidade de vida de milhares de aposentados e pensionistas.

A violência patrimonial ocorre quando terceiros utilizam o patrimônio ou a renda da pessoa idosa de forma indevida, mediante fraude, abuso de confiança, coação ou aproveitamento de sua condição de vulnerabilidade. Isso pode ocorrer por meio de empréstimos consignados não autorizados, descontos indevidos em benefícios previdenciários, golpes bancários, falsificação de assinaturas ou, ainda, pela atuação abusiva de familiares ou pessoas próximas.

A legislação brasileira reconhece essa vulnerabilidade. A Constituição Federal assegura proteção especial à pessoa idosa, enquanto o Estatuto da Pessoa Idosa (Lei nº 10.741/2003) estabelece garantias voltadas à preservação de sua dignidade, autonomia e patrimônio. O aumento desses casos tem motivado, inclusive, a discussão de novas medidas legislativas para fortalecer a prevenção, a identificação e o enfrentamento da violência patrimonial.

Na prática, muitos idosos só descobrem que foram vítimas quando percebem a redução inesperada do valor da aposentadoria ou da pensão. Em outros casos, desconhecem completamente a existência de contratos de empréstimos ou de descontos realizados em seus benefícios. Situações como essas não devem ser tratadas como algo “normal” ou inevitável. Ao contrário, exigem apuração e providências imediatas.

Algumas medidas simples podem fazer a diferença: acompanhar regularmente o extrato do benefício previdenciário, desconfiar de ligações oferecendo crédito fácil, nunca fornecer senhas ou códigos de confirmação por telefone e buscar esclarecimentos sempre que surgir qualquer movimentação financeira desconhecida. A informação continua sendo uma das principais formas de prevenção.

Quando a fraude já ocorreu, o ordenamento jurídico oferece mecanismos para proteger a pessoa idosa. Dependendo do caso, é possível contestar administrativamente descontos indevidos, buscar a nulidade de contratos firmados sem consentimento, responsabilizar instituições financeiras e pleitear judicialmente a reparação dos prejuízos sofridos.

Na advocacia previdenciária, muitas vezes o processo vai além da discussão sobre um contrato ou um benefício. Em inúmeros casos, o que se busca preservar é a tranquilidade financeira de pessoas que trabalharam durante décadas e dependem dessa renda para custear medicamentos, alimentação, moradia e outras despesas essenciais.

Neste Dia dos Avós, talvez o melhor presente não esteja apenas nas homenagens, mas também na atenção. Conversar sobre golpes, acompanhar os extratos dos benefícios, orientar sobre cuidados nas relações financeiras e buscar auxílio jurídico diante de qualquer irregularidade são atitudes que demonstram respeito e responsabilidade.

Envelhecer com dignidade é um direito assegurado pela Constituição e pela legislação brasileira. Mais do que reparar prejuízos, proteger a pessoa idosa significa preservar sua autonomia, sua segurança e o respeito à história construída ao longo de uma vida inteira. Afinal, cuidar de quem sempre cuidou de nós também é garantir que seus direitos sejam efetivamente respeitados.

 

Valéria Lima, advogada especialista em Direito Previdenciário, Regime Geral (iniciativa privada) e Próprio (servidores públicos), MBA em Gestão de Pessoas e membro do Instituto Brasileiro de Direito Previdenciário (IBDP).

COMENTE ABAIXO:
Continue lendo

POLÍTICA

POLÍCIA

ESPORTES

ENTRETENIMENTO

MAIS LIDAS DA SEMANA