Opinião
Indústrias Mato-Grossenses na Rota Global
Opinião
por Jandir Milan
Ao longo da minha trajetória, desde os primeiros passos da Ábaco Tecnologia, da Milanflex no Distrito Industrial de Cuiabá até a honra de presidir a Fiemt e atuar na CNI, sempre defendi a premissa de que a indústria é o motor da transformação social e do desenvolvimento de uma nação. Hoje, vivemos um momento de encruzilhada e oportunidade sem precedentes, onde Mato Grosso, já consolidado como o celeiro do mundo, amadurece para se tornar um polo de industrialização verticalizada e tecnológica. O desafio que se apresenta diante de nós não é mais apenas produzir, mas agregar valor, inovar e, fundamentalmente, internacionalizar nossa base produtiva.
Minha atuação no Sistema Fiemt e no Sebrae Mato Grosso sempre foi pautada pela crença de que o empresário não pode caminhar sozinho, e é sob essa ótica de união e visão estratégica que assumo agora o desafio de atuar como conselheiro da Câmara de Comércio Italiana em Mato Grosso. A inauguração desta instituição em Cuiabá, marcada para o próximo dia 04 de maio, representa um marco histórico para o nosso estado. Ela não é apenas a abertura de um escritório, mas o estabelecimento de uma ponte direta entre a expertise secular da indústria italiana e a pujança do setor produtivo mato-grossense.
A liderança institucional serve para pavimentar a estrada por onde a produção passa, e a chegada da Câmara Italiana ocorre em um contexto crucial de aproximação entre o Mercosul e a União Europeia. Este acordo representa um divisor de águas, abrindo as portas de um dos mercados mais exigentes e qualificados do planeta para os nossos produtos. Para nós, industriários, essa integração significa o acesso a novas tecnologias, o intercâmbio de design e a adoção de padrões de sustentabilidade que o mercado europeu valoriza acima de tudo. No setor de móveis, por exemplo, onde vi minha história começar, o design italiano aliado à nossa matéria-prima sustentável possui um potencial de exportação gigantesco.
Não podemos nos contentar em ser apenas exportadores de commodities, pois a visão que defendo é a da industrialização inteligente. Precisamos transformar nossa madeira em design de alto valor, nossa soja em proteína processada e nosso algodão em produtos têxteis de excelência. O papel das lideranças industriais agora é garantir segurança jurídica e estabilidade nas regras do jogo para atrair investimentos estrangeiros que vejam em Mato Grosso um porto seguro.
O futuro da indústria brasileira passa, obrigatoriamente, pelo interior do país, e a nova Câmara de Comércio Italiana será o catalisador para mostrarmos que o centro do Brasil tem competência, tecnologia e garra para disputar e vencer no mercado global.
Jandir Milan é empresário, Liderança Industrial, Vice-presidente da FIEMT e Conselheiro da Câmara de Comércio Italiana em Mato Grosso.
Opinião
A violência contra a pessoa idosa também acontece no bolso
Valéria Lima
O Brasil está envelhecendo, e essa transformação exige um olhar cada vez mais atento para a proteção da pessoa idosa. Além do acesso à saúde e à previdência, é preciso assegurar que milhões de brasileiros envelheçam com autonomia, segurança e respeito aos seus direitos. Nesse contexto, a violência patrimonial e financeira tornou-se um dos desafios mais preocupantes da atualidade.
Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) ajudam a dimensionar esse desafio. O Censo Demográfico de 2022 identificou 32,1 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais, o equivalente a 15,8% da população. Em comparação com 2010, esse contingente cresceu 56%, reforçando a necessidade de ampliar políticas públicas e mecanismos de proteção voltados à população idosa.
O crescimento dessa população também evidencia outro desafio: o aumento dos casos de violência contra pessoas idosas. Em 2025, a Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos registrou 59.134 denúncias envolvendo esse público, sendo 66% das vítimas mulheres. Entre as diversas formas de violência, a patrimonial e financeira merece atenção especial por comprometer justamente a renda que garanta a subsistência, a autonomia e a qualidade de vida de milhares de aposentados e pensionistas.
A violência patrimonial ocorre quando terceiros utilizam o patrimônio ou a renda da pessoa idosa de forma indevida, mediante fraude, abuso de confiança, coação ou aproveitamento de sua condição de vulnerabilidade. Isso pode ocorrer por meio de empréstimos consignados não autorizados, descontos indevidos em benefícios previdenciários, golpes bancários, falsificação de assinaturas ou, ainda, pela atuação abusiva de familiares ou pessoas próximas.
A legislação brasileira reconhece essa vulnerabilidade. A Constituição Federal assegura proteção especial à pessoa idosa, enquanto o Estatuto da Pessoa Idosa (Lei nº 10.741/2003) estabelece garantias voltadas à preservação de sua dignidade, autonomia e patrimônio. O aumento desses casos tem motivado, inclusive, a discussão de novas medidas legislativas para fortalecer a prevenção, a identificação e o enfrentamento da violência patrimonial.
Na prática, muitos idosos só descobrem que foram vítimas quando percebem a redução inesperada do valor da aposentadoria ou da pensão. Em outros casos, desconhecem completamente a existência de contratos de empréstimos ou de descontos realizados em seus benefícios. Situações como essas não devem ser tratadas como algo “normal” ou inevitável. Ao contrário, exigem apuração e providências imediatas.
Algumas medidas simples podem fazer a diferença: acompanhar regularmente o extrato do benefício previdenciário, desconfiar de ligações oferecendo crédito fácil, nunca fornecer senhas ou códigos de confirmação por telefone e buscar esclarecimentos sempre que surgir qualquer movimentação financeira desconhecida. A informação continua sendo uma das principais formas de prevenção.
Quando a fraude já ocorreu, o ordenamento jurídico oferece mecanismos para proteger a pessoa idosa. Dependendo do caso, é possível contestar administrativamente descontos indevidos, buscar a nulidade de contratos firmados sem consentimento, responsabilizar instituições financeiras e pleitear judicialmente a reparação dos prejuízos sofridos.
Na advocacia previdenciária, muitas vezes o processo vai além da discussão sobre um contrato ou um benefício. Em inúmeros casos, o que se busca preservar é a tranquilidade financeira de pessoas que trabalharam durante décadas e dependem dessa renda para custear medicamentos, alimentação, moradia e outras despesas essenciais.
Neste Dia dos Avós, talvez o melhor presente não esteja apenas nas homenagens, mas também na atenção. Conversar sobre golpes, acompanhar os extratos dos benefícios, orientar sobre cuidados nas relações financeiras e buscar auxílio jurídico diante de qualquer irregularidade são atitudes que demonstram respeito e responsabilidade.
Envelhecer com dignidade é um direito assegurado pela Constituição e pela legislação brasileira. Mais do que reparar prejuízos, proteger a pessoa idosa significa preservar sua autonomia, sua segurança e o respeito à história construída ao longo de uma vida inteira. Afinal, cuidar de quem sempre cuidou de nós também é garantir que seus direitos sejam efetivamente respeitados.
Valéria Lima, advogada especialista em Direito Previdenciário, Regime Geral (iniciativa privada) e Próprio (servidores públicos), MBA em Gestão de Pessoas e membro do Instituto Brasileiro de Direito Previdenciário (IBDP).
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