Cultura
Exposição “Alumbramento” abre o Festival Latinidades, em Brasília
Cultura
O Festival Latinidades apresenta a exposição “Alumbramento” no Museu Nacional da República, a partir desta quarta-feira (23/7), marcando a abertura do festival. A mostra coletiva propõe uma experiência imersiva e sensível. As obras são apresentadas de forma que o visitante possa submergir na arte de interpretar as obras de forma livre, de acordo com seus significados próprios, conectando criação, espiritualidade, território e resistência.

A exposição apresenta artistas de diversas gerações, com idades entre 20 e 80 anos. Uma metodologia de curadoria que visa fomentar um diálogo intergeracional. Um dos artistas, Nelson Crisóstomo, destaca a importância desta troca:
“A importância disso, pra mim, é essa troca mesmo de tecnologia intergeracional. Eu trabalho com memória afetiva. Então, o meu saber vem dos saberes que chegaram até mim, das pessoas que já faziam tingimento, que conseguiam extrair cor de vegetais, minerais. E eram passados, assim, os conhecimentos de forma muito intuitiva. Era no fazer, no dia a dia. A sistematização disso, ela veio com o tempo.”
A curadora da exposição, Natália Grilo, detalha que a mostra é fruto do cotidiano dos artistas no atelier, da prática repetitiva e da intensa investigação sobre si e seu território.
“A exposição Alumbramento foi um convite do Festival Latinidades e aí eu tive toda a liberdade para pensar o tema. Eu sou uma intelectual, uma mulher teórica, então eu trouxe alguns dos meus conceitos. E Alumbramento, dentro do meu campo de estudo, é aquela fresta no tempo em que o artista consegue entrar numa conexão muito íntima consigo mesmo e com o invisível. Isso não é um passe de mágica, apesar de ser uma ideia misteriosa. Isso só surge do cotidiano dentro do ateliê, da prática repetitiva, de muita investigação em torno de si mesmo e do seu território. Então, alumbramento é uma celebração, na verdade, da criação dentro do ateliê.”
A Baiana Luma Nascimento apresenta uma instalação com contas de vidro, palha, terra e pipoca. Para ela, é pensar na entropia e de como movimentar um tempo, espiralar diante da história.
“A minha obra é uma instalação dentro da Galeria 3, na exposição Alumbramento. O nome da obra é Corpo de Lembrar. É uma obra que está pensada especialmente para exposição e ela tem uma ligação direta com a história do Quilombo Mesquita. O que é mais interessante, né? E logo que eu cheguei a Brasília para montar essa obra soube da notícia que o Quilombo Mesquita, de 279 anos. acabou de receber o título de território quilombola. Eu acredito que o meu trabalho aqui nesse momento se torna um processo de documentação de um momento muito importante de recolocar a terra dentro desse museu, que essa área também já foi território quilombola. Então, acho que é um movimento, um rito de vitalidade, pensando no processo de cura da memória e da documentação do espaço-tempo.”
Já o artista João Nascimento, também baiano, destaca que a exposição coletiva é também um momento de conhecer os diferentes aspectos do Brasil.
“É muito importante porque eu gosto de fazer uma relação com as obras de exposição coletiva como um pequeno caderno de viagem. Então eu vou conhecendo o Brasil assim. Quando é possível que o trabalho vá, ele é o ímã que me puxa também pra conhecer esses outros contextos de ser brasileiro. Eu acho que a gente, como tem um país continental, às vezes fica preso na identidade que a gente conhece.”
Para Ana Neves, que também tem um trabalho na mostra, o Festival Latinidades precisa ser mais divulgado. E é uma oportunidade de dar espaço para a mulher negra, latina e caribenha.
“A importância de que a gente esteja contando narrativas também, pontuando o nosso lugar no mundo, quem somos, de onde viemos, o que acreditamos, o que podemos acreditar. Acho que a Alumbramento é muito sobre isso. Sobre a possibilidade de acreditar.”
O Festival Latinidades este ano celebra sua 18ª edição, com atividades como peças de teatro, rodas de conversa, feiras e shows no Museu Nacional em Brasília e em outras cidades do Distrito Federal.
Cultura
O “mojo “de Moacir Santos: o maestro que conectou sertão, bossa e jazz
Compositor, arranjador, multi-instrumentista, maestro… Moacir Santos completaria 100 anos no próximo dia 26 de julho. Com uma extensa obra que se destaca pela fusão de ritmos afro-brasileiros com o jazz, o músico ainda carece de maior reconhecimento no Brasil. 

A reza de pessoas numa procissão foi o ponto de partida para a melodia de Nanã, composta por Moacir Santos. Trilha de abertura do filme Ganga Zumba, ganhou letra de Mario Telles e foi gravada por uma centena de artistas, como Nara Leão, Sergio Mendes, Tim Maia e nomes do jazz, como Kenny Burrell e Gil Evans. Nanã é a orixá mais antiga das religiões afro-brasileiras e, na obra de Moacir Santos, é sua canção mais conhecida.
Da banda marcial para a orquestra
Nascido em 26 de julho de 1926, no sertão pernambucano, na região de Serra Talhada, o maestro aprendeu a tocar os instrumentos de banda marcial ainda criança. Em depoimento recuperado de um especial da Rádio MEC, em 2016, Moacir Santos relembra os primeiros contatos com a música.
“Quando eu entendi a vida, que era um ser vivo, a música também já estava comigo. A gente brincava de banda de música da cidade. Lá em Flores, uma cidade assim muito subdesenvolvida, era muito natural os meninos andarem nus, sem roupinha, até lá pelos 9, 10 anos de idade. Então, eu com 2 anos tinha a minha banda de meninos nus no meio da rua, tocando a marchinha. Então, esse foi o meu contato com música.”
Na adolescência, o músico fugiu de casa e rodou o Nordeste em orquestras de circo e bandas militares. Allan Abbadia, multi-instrumentista, arranjador, compositor e pesquisador, explica que as bandas de música têm uma importância na formação do país e que Moacir Santos veio dessa tradição.
“No Brasil Império, a gente tinha quase que a totalidade de músicos no país pessoas negras. As bandas eram o rádio da cidade, dos eventos de domingo. Então, o Moacir vem dessa tradição. Ao chegar aos grandes centros, ele já veio com essa tradição e ele acrescentou a isso os estudos mais aprofundados.”
Em João Pessoa, Moacir foi regente da banda da Rádio Tabajara e, depois, seguiu para o Rio de Janeiro, onde atuou na Rádio Nacional como saxofonista a partir de 1948 e, três anos depois, já era arranjador da orquestra da emissora.
Professores, parceiros e alunos
Foi aluno do maestro César Guerra-Peixe e professor de Baden Powell, João Donato, Paulinho da Viola, Airto Moreira, Roberto Menescal, entre outros. Andrea Ernest Dias, flautista e pesquisadora da obra do maestro, autora do livro Moacir Santos, ou os caminhos de um músico brasileiro, conta que o artista construiu uma identidade sonora a partir de pesquisas aprofundadas em teoria musical – o que fez com que músicos mais jovens quisessem aprender com o mestre.
“Para aprender música, né? De uma forma, para quem queria se aprofundar um pouco, sair do campo da intuição musical e saber, o Moacir se tornou essa pessoa que fazia essa ponte entre a erudição e o popular. Então ele se tornou dessa forma o professor de muita gente. Ele dava muita aula: Menescal, Carlos Lyra, Nara Leão.”
Ainda na década de 1960, Moacir arranjou álbuns de Elizeth Cardoso e Baden Powell, e compôs trilhas de filmes – parte delas lançadas no álbum Coisas de 1965. Considerado sua obra-prima, o trabalho reúne 10 composições, todas intituladas Coisa seguida da numeração. Andrea Ernest Dias comenta a genialidade do músico na fusão de ritmos afro-brasileiros com os sopros das bandas de jazz.
“O disco Coisas é uma síntese dessa trajetória dele. Ele tem referências das bandas filarmônicas, na instrumentação; das jazz bands também, que é uma tradição forte pelo país desde os anos 40; jazz bands que que ele também participou na sua região natal; e a questão jazzística, a improvisação, a pesquisa na Orquestra Afro-brasileira trazendo essa identidade afro-brasileira, uma marca mais forte nessa instrumentação. Esse é um trabalho que é um marco na história da música brasileira e traz o Moacir compositor na plenitude do seu domínio musical, de técnicas e de inspiração musical”.
Internacional
Em 1967, Moacir Santos deixou a Rádio Nacional e se mudou para os Estados Unidos, onde seguiu dando aulas e compondo trilhas de cinema, nas equipes dos maestros Henry Mancini e Lalo Schifrin. Na década de 70, lançou álbuns pela renomada gravadora de jazz Blue Note, entre eles, Maestro , indicado ao Grammy. Andrea Ernest Dias fala sobre o “mojo”, inovação trazida por Moacir neste trabalho.
“O mojo é uma espécie de síntese, assim, um sistema que ele criou, muito swingado, uma coisa que a gente ouve e imediatamente fala: ‘isso aí é ritmo do Moacir’. Então ele sistematizava as próprias células rítmicas e transformou esse ritmo num grande balanço, assim, numa marca pessoal mesmo. A ciranda, o maracatu, o disco Maestro marca uma nova etapa na vida do maestro Moacir Santos. Um disco realizado nos Estados Unidos e que traz ritmos intrigantes.
Legado
Em 1985, Moacir Santos foi homenageado no 1º Free Jazz Festival, e tocou na abertura do evento ao lado de Radamés Gnatalli.
A obra do maestro foi revisitada em 2001 pelos músicos Zé Nogueira e Mario Adnet no projeto Ouro Negro, com participações de Milton Nascimento, Gilberto Gil e do próprio Moacir Santos. O álbum Ouro Negro foi a porta de entrada para a obra do músico para ouvintes como o Allan Abbadia.
“Ele é fruto de uma genialidade incrível e uma intelectualidade conquistada através dos estudos, estudos também da nossa oralidade, da cultura afro-brasileira. Uma das características mais marcantes dele é o diálogo entre diferentes expressões artísticas da diáspora. Então ele vem juntando várias dessas expressões com a música erudita e ele conseguiu trazer essa essência da música afro-brasileira, afro-diaspórica, sem se tornar folclórico. Ele conseguiu usar técnicas de outros instrumentos. Ele faz uma coisa de funções assim, que é muito legal, que às vezes o baixo não tá tocando, não tá exercendo o papel do contrabaixo na música ocidental. Ele tá fazendo o papel do rum, que é o tambor mais grave”.
Neste ano, já aconteceram alguns eventos em comemoração ao centenário de Moacir Santos e, no mês de agosto, Allan Abbadia vai dar aulas sobre a obra de Moacir Santos no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc em São Paulo.
“É muito importante reverenciar a obra do Moacir Santos, não somente o nome, mas a estética. O público entender essa estética, entender o que ele quis dizer, isso é muito importante. Isso humaniza o artista. Ele faz uma obra que é à frente do seu tempo, mas uma obra que abre um campo de possibilidades para quem vier no futuro conseguir reler aquilo e se debruçar sobre aquilo. Quando eu era garoto. eu fiz workshop com ele, e ele falava: ser reconhecido no meu país é a minha maior alegria“.
Vinícius de Moraes, parceiro das composições Menino travesso e Se você disser que sim, homenageou Moacir Santos nos versos do Samba da Benção.
O músico morreu em 2006, aos 80 anos, em Los Angeles, onde morava, em decorrência de um derrame. Passados 20 anos desde sua partida, o centenário de nascimento de Moacir Santos, em 2026, é uma oportunidade de reverenciar a obra dele, que soube fundir tão bem ancestralidade e modernidade.
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