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O que é mais importante para você?

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Por Kamila Garcia

Certa vez ouvi uma frase que permaneceu comigo: “Uma vida sem propósito é uma vida infeliz”. Desde então, ela retorna acompanhada de uma pergunta aparentemente simples, mas capaz de abalar muitas das certezas que construímos: afinal, o que é mais importante para você?

Antes mesmo de nascermos, já representamos um propósito na vida de alguém. Somos imaginados, esperados e sonhados. Menino ou menina? Qual será o nome? O que será quando crescer? Antes mesmo de aprendermos a falar, muitas vezes já existem expectativas sobre nossa profissão, comportamento e futuro.

Crescemos carregando nossos próprios desejos, mas também expectativas que pertencem aos outros. Só que a vida acontece. Descobrimos habilidades, limites, vontades e caminhos que nem sempre correspondem ao projeto inicialmente pensado para nós.

Casa, escola, trabalho, amizades e relacionamentos ampliam nosso universo e despertam uma necessidade profundamente humana: ser aceito. Queremos ser amados, reconhecidos, queridos e admirados. Queremos pertencer. O problema começa quando, para caber no mundo do outro, diminuímos o espaço que ocupamos dentro de nós mesmos.

Quantas escolhas fazemos porque realmente queremos e quantas são motivadas pela necessidade de aprovação? Quantas vezes permanecemos em lugares e relações pelo medo de decepcionar alguém? Quantos sonhos abandonamos para corresponder às expectativas alheias?

O psiquiatra austríaco Viktor Frankl, criador da logoterapia e autor de Em Busca de Sentido, dedicou grande parte de sua obra à compreensão da necessidade humana de encontrar significado para a própria existência. Para ele, a busca de sentido ocupa lugar central na vida humana. Não se trata simplesmente de buscar prazer ou evitar sofrimento, mas de encontrar razões que façam a existência valer a pena.

Essa reflexão nos leva novamente à pergunta: o que, de fato, é importante para você?

A vida nos coloca diante do sim ou do não, do ser ou ter, de permanecer ou partir, do insistir ou recomeçar. Talvez uma das escolhas mais difíceis seja decidir entre existir no outro ou existir em si mesmo.

Se perguntássemos aos nossos pais sobre o futuro ideal, talvez respondessem estabilidade, profissão, casamento, filhos e segurança. A sociedade acrescentaria dinheiro, reconhecimento, produtividade e patrimônio. Mas e se a pergunta fosse feita somente a você, sem plateia, comparação ou medo de julgamento?

Talvez a primeira resposta seja: ser feliz.

Mas nem tudo o que é importante é prazeroso. Criar um filho exige renúncias. Cuidar de alguém demanda esforço. Estudar requer disciplina. Encerrar uma relação pode causar sofrimento. Recomeçar provoca medo. Defender aquilo em que acreditamos pode nos custar algumas companhias.

Às vezes, escolher o que é mais importante também dói.

Propósito não significa viver sem dificuldades. Talvez seja compreender por que determinadas dificuldades ainda valem a pena.

Você é feliz com a vida que está construindo? Tem sido uma boa pessoa? Suas escolhas representam aquilo em que acredita ou apenas aquilo que esperam de você? Você está vivendo ou simplesmente cumprindo tarefas e ocupando um lugar no espaço?

Rever prioridades não é egoísmo. Mudar de direção não significa fracasso. Crescer também é reconhecer que aquilo que um dia foi essencial pode deixar de ser.

Podemos passar uma vida inteira tentando ser aquilo que esperam de nós e, ao final, perceber que faltou justamente a pessoa mais importante nessa história: nós mesmos.

Por isso, de tempos em tempos, faça a pergunta: o que é mais importante para você?

Talvez encontrar essa resposta seja o primeiro passo para descobrir o verdadeiro sentido de estar aqui.

*Kamila Garcia é bacharel em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, com pós-graduação em Psicanálise. Atualmente é estudante de Psicologia.

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Quem suporta o seu brilho?

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Por Soraya Medeiros

Dizem que é na dor que conhecemos os verdadeiros amigos. A tempestade seleciona presenças, derruba aparências e revela quem permanece quando já não temos sorrisos ou conquistas para oferecer.

Mas existe um teste ainda mais silencioso: a nossa felicidade.

Há pessoas capazes de nos abraçar quando estamos no chão, mas incapazes de aplaudir quando nos levantamos. Oferecem consolo diante do fracasso, mas se inquietam diante da nossa vitória. E é justamente quando começamos a florescer que certas relações mostram raízes que nunca havíamos enxergado.

O psicólogo Leon Festinger, ao formular a Teoria da Comparação Social, demonstrou como tendemos a avaliar a nós mesmos em relação aos outros. A comparação faz parte da experiência humana. O problema começa quando a conquista alheia passa a ser interpretada como medida da própria insuficiência.

É nesse terreno que a inveja encontra espaço.

E ela raramente chega anunciando o próprio nome. Aparece na ironia disfarçada de brincadeira, no elogio seguido de um, “mas”, no silêncio inesperado ou na tentativa de diminuir aquilo que você levou anos para construir.

Nem toda ausência é inveja. Nem todo silêncio significa ressentimento. Maturidade exige cuidado para não transformar todo comportamento em ameaça. Mas padrões dizem muito. Sobretudo quando alguém sempre encontrou palavras para nossas derrotas e, curiosamente, fica sem palavras diante das nossas vitórias.

Talvez porque acolher a dor do outro seja, para algumas pessoas, mais fácil do que suportar seu crescimento.

Celebrar alguém exige segurança emocional e a compreensão de que a felicidade não é um recurso escasso. O sucesso alheio não rouba nossas possibilidades. A luz do outro não diminui a nossa.

Existe uma palavra de origem budista que traduz uma bela capacidade humana: mudita, a alegria genuína diante da felicidade do outro. É uma resposta à inveja. É conseguir pensar: “Que bom que aconteceu com você”, mesmo quando aquilo ainda não aconteceu conosco.

Isso é grandeza emocional.

Com o tempo, aprendemos que algumas pessoas suportam nossas tempestades, mas não suportam nossa primavera. Gostavam de nos aconselhar, mas estranham quando já não precisamos ser salvos. Sentiam-se confortáveis diante das nossas fragilidades, mas se incomodam diante da nossa força.

Perceber isso não deve nos tornar desconfiados ou amargos. Deve nos ensinar a escolher melhor onde depositamos nossa intimidade.

Amizade verdadeira não é somente oferecer o ombro quando alguém chora. É também estar na primeira fila quando essa pessoa vence.

No fim, talvez não devêssemos observar apenas quem permaneceu quando tudo deu errado. É preciso olhar também para quem sorriu quando finalmente deu certo. Segurar nossa mão durante a queda é uma demonstração de afeto. Mas aplaudir, sem comparação, competição ou ressentimento, quando chega a nossa vez de brilhar talvez seja uma das provas mais bonitas — e mais raras — de amor.

*Soraya Medeiros é jornalista.

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