Opinião
Soberania Digital: o Brasil está mesmo no controle dos próprios dados?
Opinião
Em tempos de avanço tecnológico acelerado, a pergunta sobre a segurança dos nossos dados deixou de ser uma preocupação apenas individual para se tornar uma questão de Estado. Estariam os dados do Brasil realmente protegidos? A resposta, infelizmente, é negativa. Seja em órgãos públicos, instituições financeiras, hospitais, escolas ou até em simples cadastros de acesso em prédios, a exposição de informações sensíveis é cada vez mais comum — e frequentemente negligenciada. Mas quando falamos de dados estratégicos de um país, como registros da Previdência, cadastros gerados durante a pandemia, contas bancárias, pesquisas científicas, dados de segurança nacional, planejamento militar ou informações sobre recursos naturais, o risco atinge outro patamar.
O Brasil figura entre os países mais atingidos por vazamentos e ciberataques, com prejuízos que afetam não apenas empresas e instituições, mas a própria estrutura de Estado. A chamada Guerra Cibernética já está em curso, e nela os alvos são invisíveis, mas os impactos são profundos. Exemplo disso foram os ataques coordenados durante a guerra entre Rússia e Ucrânia, onde sistemas de energia, transportes e hospitais foram comprometidos. Em outra frente, o conflito entre Israel e o grupo Hamas também foi marcado por invasões a sistemas de comunicação e espionagem digital. Esses episódios não ocorrem apenas em zonas de guerra: o Brasil, mesmo em tempos de paz, é alvo constante de ataques e espionagem que visam suas infraestruturas críticas e bases de dados estratégicos.
Um dos pontos mais sensíveis dessa discussão envolve a localização dos dados nacionais. Atualmente, grande parte das informações do Brasil está armazenada em nuvens que pertencem a empresas estrangeiras e que operam servidores fora do país. Embora forneçam qualidade técnica, essas empresas estão subordinadas às legislações dos países onde estão sediadas — muitas vezes, com interesses políticos e estratégicos que podem não coincidir com os nossos. E em um eventual conflito, seja comercial ou geopolítico, a soberania sobre esses dados pode ser facilmente colocada em xeque.
A preocupação se estende também ao uso de tecnologias que conectam o Brasil a estruturas de controle externas. Um exemplo crítico é o sistema de navegação GPS, utilizado por aviões, navios, aplicativos de transporte, agricultura de precisão e até pelo setor financeiro. O GPS é controlado integralmente pelos Estados Unidos, o que significa que, tecnicamente, esse país pode restringir ou desligar o acesso ao sistema no Brasil, caso considere necessário por razões estratégicas. Outros blocos, como a União Europeia, China e Rússia, já desenvolveram seus próprios sistemas — como Galileo, BeiDou e GLONASS — exatamente para não dependerem de um único operador. O Brasil, por sua vez, permanece vulnerável e dependente.
Outro ponto de atenção envolve a entrada em massa de veículos conectados, especialmente os da fabricante chinesa BYD. Esses automóveis, além de oferecerem inovação e sustentabilidade, capturam e transmitem dados constantemente: localização, voz, câmeras, padrões de condução, entre outros. Relatórios internacionais alertam que parte dessas informações pode estar sendo enviada a servidores localizados na China, o que levanta dúvidas legítimas sobre privacidade, rastreamento em tempo real e uso estratégico desses dados em caso de crise. Em um país com dimensões continentais e relevância geopolítica como o Brasil, permitir a coleta sistemática de dados sensíveis por empresas estrangeiras é, na prática, abrir mão do controle sobre a própria mobilidade e segurança.
Outro fator de fragilidade está na criptografia insuficiente. Mesmo quando os dados estão armazenados em nuvens ou servidores supostamente seguros, muitos não contam com criptografia robusta, o que equivale a deixar um cofre dentro de outro cofre com as chaves penduradas na porta. Em uma situação de pressão ou guerra, o país onde os dados estão armazenados pode ser forçado judicial ou politicamente a dar acesso a essas informações — e sem proteção adequada, as consequências podem ser desastrosas.
É urgente que o Brasil adote uma política nacional clara e eficaz de soberania digital, voltada para a proteção e controle de seus dados estratégicos. Isso inclui investir em data centers próprios em território nacional, desenvolver tecnologias de criptografia de última geração, regulamentar de forma rigorosa a entrada de equipamentos conectados de alto risco, e iniciar o planejamento de um sistema de geolocalização brasileiro, independente e seguro. Proteger os dados não é apenas uma questão técnica ou administrativa — é uma questão de segurança nacional. O Brasil precisa compreender que, no mundo de hoje, o que está em jogo não é apenas informação, mas o futuro do país. Soberania digital é soberania real.
Oscar Soares Martins – Consultor e especialista em cybersegurança e em IA.
Opinião
As Amélias de hoje
Quando chega o mês da mulher, gosto de refletir sobre um tema que, durante muito tempo, foi mal interpretado: a figura da “Amélia”. Muita gente se lembra da música famosa de Ataulfo Alves e Mário Lago e associa o nome Amélia a uma mulher submissa, limitada ao lar ou reduzida ao papel de servir. Mas será que é isso mesmo que significa ser uma Amélia?
Eu penso diferente. Ao longo da minha trajetória, comecei a refletir sobre esse assunto quando ainda estava na faculdade. Em uma aula, recebemos o tema “Amélia” para uma redação. Naquele momento eu já era mãe e estava grávida do meu segundo filho. Quando escrevi meu texto, percebi que a visão predominante era de crítica à figura da Amélia, como se ela representasse algo negativo para a mulher.
Mas eu nunca enxerguei dessa forma, eu sempre acreditei que uma coisa não precisa substituir a outra… ela pode somar. Ser uma mulher ativa no mercado de trabalho não impede que ela também cuide da sua casa, da sua família ou dos seus afetos. Da mesma forma, dedicar-se à família não diminui a inteligência, a força ou a capacidade de uma mulher.
Quando comecei a pesquisar mais sobre o assunto, descobri algo interessante: o significado do nome Amélia não tem nada a ver com submissão. Muito pelo contrário, Amélia significa uma mulher vigorosa, ativa e trabalhadora e isso descreve perfeitamente muitas mulheres que conhecemos.
As Amélias de hoje são mulheres que trabalham, que empreendem, que lideram, que estudam, que cuidam da casa, que educam os filhos e que, muitas vezes, ainda sustentam suas famílias. São mulheres que enfrentam dificuldades, mas seguem firmes, construindo caminhos com coragem e resiliência.
No meu consultório, ao longo dos anos, ouvi inúmeras histórias de vida e posso dizer com segurança que muitas mulheres são verdadeiras parceiras na construção da vida familiar. Elas caminham ao lado, enfrentam momentos difíceis, ajudam a reorganizar a casa, apoiam os filhos e muitas vezes sustentam emocionalmente toda a estrutura da família, e isso representa força!
Ser Amélia hoje não significa abrir mão da autonomia ou da liberdade. Significa compreender que a mulher pode ocupar todos os espaços que desejar (no trabalho, na política, na ciência, na família ou onde mais escolher estar), mas também significa reconhecer que algumas qualidades tradicionalmente femininas, como o cuidado, a parceria, a capacidade de administrar múltiplas tarefas e de manter relações equilibradas, não devem ser desprezadas.
Essas qualidades não diminuem a mulher, pelo contrário, revelam sua grandeza. As Amélias de hoje são mulheres modernas, conscientes e protagonistas da própria história. São mulheres que trabalham, que sonham, que realizam e que, acima de tudo, constroem. Somos nós o cuidado e a delicadeza, ou seja, ser feminina não diminui, em nada, a nossa coragem.
Neste Mês Internacional da Mulher, minha reflexão é simples: que possamos valorizar todas as mulheres, em suas diferentes escolhas, trajetórias e formas de viver, porque, no final das contas, cada uma de nós carrega um pouco dessa força silenciosa, ativa e transformadora que sempre existiu nas verdadeiras Amélias.
Sonia Mazetto – Gestora de Potencial Humano, Terapeuta Integrativa, Fonoaudióloga e Palestrante
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