Opinião
Quando a ciência encontra a vontade política
Opinião
Há uma característica comum às políticas públicas que transformam sociedades: elas não são construídas sobre impressões, mas sobre evidências. O tempo em que o improviso, a experiência isolada ou o chamado “achismo” bastavam para orientar decisões ficou para trás. Governar, especialmente quando se trata da primeira infância, exige coragem para ouvir aquilo que os dados revelam e responsabilidade para transformar conhecimento em ação.
A primeira infância representa a mais estratégica das etapas do desenvolvimento humano. É nesse período que se estabelecem as bases da aprendizagem, da convivência social, da saúde emocional e da capacidade de cada criança construir seu projeto de vida. Quando uma política pública falha nesse momento, seus efeitos atravessam gerações. Quando acerta, produz desenvolvimento, reduz desigualdades e amplia oportunidades para toda a sociedade.
Por essa razão, é alentador que o debate internacional tenha avançado para compreender a criança em sua integralidade. O Estudo Internacional de Aprendizagem e Bem-Estar Infantil (IELS), desenvolvido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), rompe com a visão limitada de que educar consiste apenas em medir desempenho escolar.
O estudo investiga, de forma integrada, competências relacionadas à literacia e à numeracia emergentes, à autorregulação, à memória de trabalho, ao controle dos impulsos, à flexibilidade mental e às habilidades socioemocionais, reconhecendo que aprender e viver bem são dimensões inseparáveis do desenvolvimento infantil.
Não por acaso, a pesquisa foi aplicada no Brasil envolvendo municípios, escolas, professores, famílias e crianças, produzindo um conjunto de evidências que hoje constitui referência para governos interessados em aperfeiçoar suas políticas públicas. Mais do que números, são informações capazes de revelar desigualdades, identificar vulnerabilidades, orientar prioridades e qualificar investimentos públicos.
É precisamente essa ponte entre conhecimento científico e decisão governamental que o Tribunal de Contas de Mato Grosso, com sua Comissão Permanente de Educação e Cultura (COPEC), pretende fortalecer ao promover, no próximo dia 4 de agosto, das 9h às 11h, o webinar “Aprendizagem e Bem-Estar na Primeira Infância: Evidências para as Políticas Públicas”, transmitido pelo canal oficial do TCE-MT no YouTube. Teremos a honra de receber o professor Dr. Thiago Bartolo, da UFRJ e coordenador nacional do IELS no Brasil, cuja trajetória acadêmica confere profundidade e autoridade ao debate.
O encontro não foi concebido apenas para apresentar uma pesquisa internacional. Seu propósito é mais ambicioso: provocar uma mudança de paradigma na administração pública. Queremos estimular gestores, educadores, dirigentes escolares e formuladores de políticas a reconhecer que decisões mais eficientes nascem da capacidade de interpretar evidências, confrontar diagnósticos e planejar com inteligência.
Essa também é a missão contemporânea dos Tribunais de Contas. A fiscalização permanece essencial, mas já não esgota nossa responsabilidade institucional. O controle externo do século XXI deve produzir conhecimento, induzir boas práticas, fortalecer capacidades estatais e contribuir para que cada decisão pública seja tecnicamente mais qualificada e socialmente mais efetiva.
Investir na primeira infância significa investir no futuro, mas investir com base em evidências significa fazê-lo com maior justiça, eficiência e responsabilidade. Não existe política pública transformadora sem vontade política. Mas a vontade, quando caminha ao lado da ciência, deixa de ser apenas uma boa intenção para tornar-se verdadeira capacidade de transformar vidas.
É esse compromisso que convido gestores, educadores e toda a sociedade a compartilhar conosco. Porque o futuro das nossas crianças não pode depender de opiniões. Deve ser construído sobre conhecimento, evidências e escolhas públicas capazes de honrar aquilo que temos de mais valioso: a infância e suas infinitas possibilidades.
Antonio Joaquim Conselheiro, ouvidor-geral e presidente da Comissão Permanente de Educação e Cultura do Tribunal de Contas de Mato Grosso (TCE-MT).
Opinião
Gestão não é marketing
Por Rodrigo de Arruda e Sá*
Vivemos a era da comunicação instantânea. Nunca foi tão fácil mostrar uma obra, anunciar uma ação ou divulgar uma agenda. As redes sociais aproximaram governantes e cidadãos, deram mais transparência ao poder público e permitiram que a população acompanhasse o dia a dia da administração quase em tempo real. Isso é positivo.
O problema começa quando a comunicação deixa de ser consequência da boa gestão e passa a ocupar o lugar dela. Administrar uma cidade exige muito mais do que produzir boas imagens, gravar vídeos ou publicar diariamente nas redes sociais. Exige planejamento, capacidade de execução e disposição para enfrentar problemas que, muitas vezes, não rendem curtidas nem manchetes.
O cidadão não escolhe um prefeito para produzir conteúdo. Escolhe para melhorar sua qualidade de vida. Espera ruas mais seguras, trânsito mais organizado, obras planejadas, serviços públicos eficientes e regras claras para quem deseja trabalhar, empreender e investir. A comunicação pode mostrar esses resultados, mas jamais substituí-los.
Existe uma diferença importante entre governar para aparecer e aparecer porque se governa bem. No primeiro caso, o foco está na repercussão de cada decisão. No segundo, a prioridade é resolver problemas concretos, mesmo que isso aconteça longe das câmeras. A história mostra que as melhores administrações foram lembradas pelas transformações que produziram, e não pelo volume de suas publicações.
Como contador e empresário, aprendi que resultados não podem ser medidos apenas pela aparência. Uma empresa não se torna sólida porque investe em propaganda, mas porque entrega qualidade, cumpre compromissos e conquista a confiança de seus clientes. Na administração pública acontece exatamente o mesmo. A credibilidade nasce da capacidade de entregar aquilo que foi prometido.
Isso não significa desprezar a comunicação. Pelo contrário. Uma gestão eficiente precisa prestar contas, explicar suas decisões e manter diálogo permanente com a sociedade. Mas a comunicação deve servir à gestão, e não a gestão servir à comunicação. Quando essa ordem se inverte, corre-se o risco de transformar o governo em uma campanha permanente.
A população percebe essa diferença. Pode até acompanhar um vídeo ou compartilhar uma publicação, mas forma sua opinião quando enfrenta o trânsito causado por uma obra mal planejada, quando espera por um serviço que não funciona ou quando encontra obstáculos desnecessários para resolver problemas simples. A experiência cotidiana pesa muito mais do que qualquer estratégia de marketing.
Uma boa administração não precisa escolher entre comunicar e governar. Precisa fazer bem as duas coisas, na ordem correta. Primeiro vêm as decisões acertadas, os resultados concretos e a melhoria da vida das pessoas. Depois vem a comunicação, com a função legítima de prestar contas à sociedade.
No fim das contas, o cidadão não espera um influenciador digital ocupando o cargo de prefeito. Espera um gestor capaz de resolver problemas, planejar o futuro e construir uma cidade melhor. Porque, ao final de cada mandato, não são os vídeos publicados que permanecem na memória da população, mas os resultados que ela encontrou nas ruas onde vive.
*RODRIGO DE ARRUDA E SÁ é contador, bacharel em Direito, empresário e ex-vereador de Cuiabá.
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